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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Se Beber Não Case

É tudo questão de timing. Não tem essa de ser metido a engraçado, fazer o público rir a custa de palhaçadas histéricas ou de escatologia verbal. Para se fazer comédia o ator tem que ter timing, ser engraçado por natureza. E diferente do que muitos pensam, fazer comédia não é fácil. Não é para qualquer um. Do humor ingênuo de Chaplin e Keaton, passando pelo non sense do Monty Python, o pastelão dos Trapalhões, até o humor de confronto tão em uso atualmente, a comédia sempre está se reciclando, por mais que o que seja feito hoje em dia seja uma saraivada de tudo o que já foi feito antes. Mas ao se fazer humor com o improvável, surge um novo alento para nossos olhos. E quando um filme com três caras desconhecidos se torna uma das maiores bilheterias do ano com uma censura 18 anos, pode olhar que aí tem coisa.

Se Beber Não Case é o improvável do óbvio. É uma comédia pra lá de engraçada, sem nenhum nome tão conhecido no elenco, realizada por um diretor talentoso, porém apelativo, sem tanto apelo junto ao grande público. O diretor Todd Phillips tem no currículo apenas uma comédia digna de nota, Dias Incríveis, de 2003 (que, confesso, sou fã). Então não existe pressão nem expectativa da parte de ninguém no lançamento de qualquer projeto seu. Quando Se Beber Não Case estreou na surdina em pleno verão norte-americano, quem apostaria que um projeto sem nomes de peso iria fazer sucesso? Pois fez. Com uma premissa pra lá de manjada – uma despedida de solteiro que dá errado – nasceu a melhor comédia adulta do ano. E não se admire se você achar aquilo tudo familiar, qualquer semelhança com qualquer ressaca sua é mera coincidência.

A história começa quando quatro amigos resolvem celebrar o último dia de vida antes do casamento de um deles (Justin Bartha) em Las Vegas. O problema é que depois de uma noitada daquelas e de uma ressaca homérica, ninguém se lembra de absolutamente nada e, para piorar, o noivo sumiu. Se esta breve sinopse já te fez rir, prepare-se para as surpresas. Agora, diferente do filme-modelo dessa classe de comédias (A Última Festa de Solteiro, com Tom Hanks), Se Beber Não Case não foca na noite de esbórnia e luxúria dos amigos, e sim nas conseqüências da mesma. Os outros três sobreviventes interpretados por Bradley Cooper, Ed Helms e Zach Galifianakis (este último é um achado e desde já merece o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) partem numa epopéia pela cidade dos cassinos em busca de noivo e de descobrir o que realmente aconteceu. Acredite, quanto menos você souber a partir daqui melhor.

Se Beber Não Case é um caso extra nos cinemas. Uma comédia adulta, com pessoas adultas que se comportam como adultas. Por isso, nada de passar constrangimento com atitudes infantis. O constrangimento aqui se resume ao fato de um pileque apocalíptico ter praticamente acabado com a memória de uma farra espetacular. E é nesse outro quesito que a comédia ganha mais pontos. Todd Phillips não faz o óbvio de explicar a cada frame de filme o que houve na noite anterior, pelo contrário, ele reserva as piadas para o resultado e as seqüelas do que ocorreu. O destino do noivo e as diabruras dos outros três amigos ficam apenas na imaginação. Somos espectadores ativos da história e compartilhamos com eles a total falta de senso perante aquela ressaca. O que eles sabem é o que nós sabemos. E o que eles descobrem nós descobrimos com eles durante toda a projeção. O que é motivo de vergonha para eles, é motivo de riso para nós. E lá pelas tantas, já no fim do filme, quando já passamos por quase todo tipo de reação por conta daquela noite de loucuras e quando praticamente não importa mais o que realmente aconteceu, eles encotram a máquina digital que registrou tudo. E junto com eles fazemos uma promessa de ver aquilo por uma única vez e esquecer toda aquela infâmia. E é no ápice do final feliz, no subir dos créditos que reside toda a graça do filme. Se você não rachar o bico de tanto rir no fim do filme, pode procurar um analista. Ou o seu pulso. E se você achar que Se Beber Não Case é um filme chato e sem graça, não se preocupe. Ninguém vai notar se você sumir. Pode voltar pro Zorra Total que ninguém vai te crucificar por isto. Cê tá pagando, né!?

NOTA: 9,0

segunda-feira, 16 de março de 2009

Se Eu Fosse Você 2

Em time que está ganhando não se mexe. A máxima do futebol também é aplicada com sucesso no cinema. E, num caso raro para o cinema nacional - o país do futebol, é bom ver um mesmo time vencer de novo. E de goleada. Em meio à eterna disputa da indústria cinematográfica brasileira em busca de espaço na longa fila de filmes comerciais norte-americanos, Se Eu Fosse Você 2, seqüência do maior sucesso nacional de 2006, surgiu como um trator e tirou do caminho alguns arrasa-quarteirões ianques (ou “enlatados americanos” para os ufanistas xiitas) e se tornou a maior bilheteria do país desde a retomada. Surpresa? De maneira alguma. Faro popular. Coisa que o diretor Daniel Filho, com sua larga experiência, tem de sobra. Dar ao público o que ele quer e pronto.

Longe de ser chato ou enfadonho, Se Eu Fosse Você 2 consegue arrancar risadas até daqueles que não botam fé alguma em produções nacionais com elenco global. Apesar de roteiro carecer de originalidade (digamos que o filme é uma mistura liquidificada de Sexta-Feira Muito Louca com Um Espírito Baixou em Mim e O Pai da Noiva) a dupla central consegue, graças a uma química perfeita, nos fazer esquecer este importante detalhe. Tony Ramos e Glória Pires retomam o papel do casal que troca de corpo e agora, bem mais a vontade, entram de cabeça nos personagens e seguram o filme inteiro nas costas, não se intimidando em realizar cenas constrangedoras para fazer o público rir. E ainda parece que se divertiram a beça. Principalmente Tony, que desde o Manolo da novela As Filhas da Mãe de Sílvio de Abreu não fazia um personagem cômico tão cativante. As cenas em que ele, encarnando a esposa, entra no apartamento de um amigo para urinar e a que entra como reserva num jogo de futebol são de chorar de tanto rir.

Já entre os coadjuvantes o destaque vai para Isabelle Drummond. A ex-Emília faz a filha do casal, então com 18 anos, que tem a ingrata tarefa de comunicar aos pais que está grávida. A partir daí a trama gira em torno dos preparativos do casamento da mesma. Mas as piadas, visuais e verbais, ainda continuam a saltar da tela como sapos na sua porta num dia de chuva. Algumas até forçadas, é verdade, mais ainda assim fazem a platéia rir. Se Eu Fosse Você 2 também é atrativo por ser uma continuação independente, ou seja, não precisa exatamente dos eventos do filme original para deslanchar. O filme só peca realmente no final, clichê e piegas, e ainda deixa uma descarada brecha para uma terceira parte, para quem sabe fechar com louvores a primeira franquia de sucesso do cinema brasileiro. Quem não gosta nem um pingo destes filmes de apelo popular (tipo os cinéfilos “cabeça” que só querem ver arte para divagar baboseiras em seus blogs sobre a lógica da arte) vai chiar bastante. Mas vendo pelo lado bom, esta é a fórmula do sucesso. Sucesso de público que há muito não se via. Deixe o preconceito de lado e corra pra ver enquanto ainda dá tempo.

NOTA: 9,5

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Antes Só do Que Mal Casado

Vou lhes contar uma coisa sobre os irmãos Farrelly: os dois são mestres no segmento do humor grosseiro e escatológico. Você já sabia disto? Que bom. Só que, justamente por ostentar esse título entre o público, eles acabam o desgostando a cada novo longa-metragem. Eles nos devem uma nova comédia babaca nos moldes de Debi & Lóide e Kingpin. Chega de tentar ser romântico perante tanta situação inconveniente. Os caras padecem da Síndrome de Shyamalan (ou Shyamalan padece da Síndrome Farrelly, tanto faz). Tal qual o diretor indiano, os irmãos sempre deixam a expectativa de um novo filme à altura de seu maior sucesso. A diferença básica é que, Shyamalan, depois de O Sexto Sentido, conseguiu fazer outras obras-primas de tamanha importância, apesar dos protestos. Já os Farrelly, depois de Quem Vai Ficar com Mary?, tentam - e não conseguem - fazer sempre outro Quem Vai Ficar com Mary?. Eita, carma. Earl explica...

Este Antes Só do Que Mal Casado não foge a regra. O filme até que é bom, arranca altas risadas em determinadas cenas em sua primeira parte, com piadas de extremo mau gosto (e sem gel no cabelo). Mas em sua segunda parte... é aí que residem todos os problemas da comédia. Onde foi que eles erraram? Justamente no ponto de tentar salvar um filme que não estava precisando - e nem querendo - ser salvo com romantismo desnecessário. O que começou como uma comédia engraçadíssima terminou como uma comédia romântica piegas.

Na primeira parte, temos Ben Stiller (bisando a parceira com os Farrelly de Quem Vai Ficar com Mary?) e a loira Malin Akerman dando um show de humor nas situações mais histéricas e constrangedoras possíveis (esperem para ver as cenas de sexo entre os dois). Além de um Jerry Stiller, pai do protagonista dentro e fora das telas, sacana e desbocado. O que surpreende nesta primeira metade, é que a força motriz do longa não é Stiller e sua eterna cara de azarado, e sim, a atriz sueca Malin Akerman. A mulher consegue passar da meiguice ao histrionismo com a maior naturalidade do mundo. É com ela que estão as cenas mais engraçadas. De namorada dos sonhos, ela se transforma em pesadelo de esposa. Só que, quando tudo ia bem, no meio do caminho surge Michelle Monaghan como uma luz no fim do túnel do protagonista. Pois é, foi a partir daqui que o filme se perdeu tentando se encontrar. Nada contra a moça, ela até que é boa atriz. Mas o seu semblante, em determinados momentos, evidencia bem a situação: ela não queria estar ali. Como disse bem minha esposa no fim da sessão, “a outra sempre atrapalha e estraga”.

Mesmo com algumas cenas hilárias em sua segunda metade, o foco principal virou a busca pela mulher ideal e uma nova chance para o amor. Blá, blá, blá. Se a trilha sonora pop encanta (com meia dúzia de clássicos de David Bowie), a química entre Ben Stiller e Michelle Monaghan desencanta. A redenção do protagonista se torna a maldição do filme. E apesar do final boboca, fique atento aos créditos finais, onde a suequinha ninfomaníaca aparece no meio deles para fechar sua participação com chave de ouro. Essa moça tem futuro. Já com relação aos Farrelly, melhor sorte da próxima vez.

NOTA: 6,0