Em termos de narrativa Avatar não é nenhuma surpresa e é até, convenhamos, óbvio demais. É uma espécie de Dança com Lobos e O Último Samurai Sci-Fi. Cameron peca ao distinguir claramente os bons dos maus, deixando o roteiro com atmosfera infantil, além de abusar do romance deixando a história um tanto melosa. Mas no quesito visual, o diretor foi ao infinito e além. O mundo de Pandora é de uma perfeição inigualável. Em algumas cenas, tamanha a grandiosidade e a infinidade de detalhes minuciosos, é impossível não ficar boquiaberto. Cameron deu uma de Deus (na certa cansou de ser só “Rei”) e literalmente criou um mundo. O ecossistema de Pandora se assemelha um pouco ao da Terra, porém, sua fauna e sua flora, além claro da civilização nativa Na'vi, são de uma riqueza cristaliza e de um exotismo singular. Algo mágico. Um trabalho de design extraordinário. E visto que, com exceção dos atores, tudo foi criado por computador, chega até ser inacreditável que nada ali seja real de tão perfeito. E a fotografia digital do filme realça ainda mais a falta de limites entre o real e o quimérico.
Na trama simples, Jake Sully (Sam Worthington, perfeito e com uma brilhante carreira pela frente) é um ex-militar paraplégico que é levado ao planeta Pandora, habitado pelo povo Na'vi, raça humanóide com língua e cultura próprias, em substituição a sua irmão morto, para estudo e exploração do local. E nesse lugar ele acaba lutando pela própria sobrevivência e pela preservação desse povo. Além de Worthington, Cameron também conta com a presença de Sigourney Weaver no papel da Dra. Grace Augustine, uma cientista brilhante já familiarizada com os Na'vi. A presença dela deixa o filme mais seguro e humano. E ainda dá a Stephen Lang o papel de sua vida ao interpretar o coronel casca-grossa Miles Quaritch, o suposto vilão do filme. Bem, suposto porque é nítida a intenção do diretor/roteirista de passar uma mensagem ecológica. Já que ele criou um mundo, não quer que o mesmo seja maculado ou devastado, e só uma espécie irracional destruiria tamanha beleza natural. Daí é a raça humana que ostenta o papel de vilão com sua ganância e intolerância desmedidas. Em busca dos recursos naturais do planeta, os executivos burocratas e o exército americano não vêem problema em explorar e destruir a biodiversidade de Pandora. E eles terão o que querem, nem que para isso tenham que promover um genocídio coletivo. Cabe a Jake a tarefa de ser o contraponto pacifista, nem que tenha que abandonar seu lado humano e lutar ao lado dos nativos.
Cameron criou um filme longo por demais. Aos desavisados de seu estilo eloqüente e um tanto soberbo, o longa-metragem pode ser um pouco enfadonho, tornado-se empolgante depois de sua metade. Mas quem foi contemplar a mais nova obra-prima do diretor em sua íntegra, em sua essência, mesmo que não tenha sido em 3D, saiu do cinema mais que satisfeito. Cameron, além de saber trabalhar com efeitos especiais como nenhum outro diretor, é ótimo na condução de atores, lida bem com os dramas dos personagens e conduz cenas de ação com maestria. A cena da destruição da árvore da civilização e o clímax final são espetaculares. Nada novidade para quem dirigiu O Exterminador do Futuro 2 e True Lies. Cameron também não deixa que os efeitos compensem os defeitos. Nada é jogado ao acaso. Basta lembrar que em Titanic o romance entre Jack e Rose não era mero pano de fundo para a tragédia, mas o oposto. Avatar é um espetáculo visual, um marco na história do cinema. Um clássico a ser lembrado não somente por ser uma revolução técnica, mas um filme de história simples e tocante banhado com o mais alto brilho visual. A espera compensou. Nossos sinceros parabéns, James Cameron. E viva a tecnologia!
NOTA: 10
