Meus amigos costumam perguntar por que eu gasto meu dinheiro vendo os capítulos da saga Crepúsculo no cinema. Como resposta, e com a convicção de um doutor em sociologia, respondo que enfrentar a histeria hormonal coletiva é uma experiência antropológica. E é mesmo. Quando me dispus a assistir Eclipse, quase um mês depois de seu lançamento, todo o furor já havia passado. Mas ainda assim, com a sessão quase vazia, dava para sentir de forma sobrenatural os suspiros e gritinhos das meninas. E isto só prova uma coisa: os filmes dos vampirinhos apaixonados que brilham à luz do sol são realmente um fenômeno. E só são porque, como já havia dito antes, cada fotograma é milimetricamente programado para agradar seu público-alvo. Não há no texto conteúdo cerebral qualquer ou algum traço de liberdade criativa na direção. É tudo muito bonitinho, mas nem um pingo saudável. Como um hambúrguer de fast food. Eclipse não apresenta uma evolução esperada para continuações de uma série. É só mais do mesmo, mais uma vez. É impressionante como até certos enquadramentos são semelhantes com alguns dos outros capítulos. E mesmo sabendo que os filmes desagradam boa parte da ala masculina - aqueles que não vêem sentido ou explicação naquela novela mexicana travestida de filme de monstro, aprendi a vê-los de forma diferente: não os levando a sério. E, vamos ser francos, não há por que levá-los a sério. Tomei Eclipse por comédia-romântica (sério!). E visto por esta ótica, o filme se torna até bem divertido. Devo admitir que Eclipse seja sim o mais divertido dos três. Quando o diretor David Slade assumiu o comando deste episódio, surgiu a esperança (vã) de que, pelo currículo do cara (é dele o sangrento 30 Dias de Noite), a saga tomasse um rumo surpreendente ou inesperado. Mas não. Como é um produto de estúdio, nada de sangue jorrando ou altas doses de adrenalina, apenas romance capenga e piegas com algumas pitadas de ação parca e um blábláblá explicativo desnecessário que menospreza a inteligência da platéia (se é que há vida inteligente dentre os fãs de Crepúsculo). Resumindo, tudo muito asséptico num filme ruim que se acha cool. David Slade por sua vez, tendo suas artérias e veias rompidas hemostasiadas, tratou de compensar sua frustração inserindo piadas ácidas que, de certo modo, só fariam sentido para aqueles que se sentem nauseados com os devaneios apaixonados de Edward e Bella. Alguns diálogos ainda continuam intragáveis, mas as piadinhas com os adolescentes valem o ingresso. O filme também não desperta tensão e nem procura dar raciocínio lógico aos acontecimentos. A cena de abertura atesta bem isto: é escura, mal editada e sem sentido aparente. A partir daí começa uma ciranda de bons contra maus misturada com romance casto e briga de egos narcisistas. Slade também não diz a que veio e, como um gato castrado, só mantém a preguiça dos longas anteriores. Tudo é mastigado demais (mesmo sabendo que o texto foi limado ao extremo), há closes dispensáveis, travellings sem sentido, a edição é por vezes acelerada e a trilha é pop deprê demais. Mas num filme feito para adolescentes, quem vai ligar pra isso? Mesmo assim há momentos de pura diversão. Momentos que antes causavam um embrulho no estômago por serem tão clichês acabam provocando um riso involuntário, como nas cenas do beijo roubado, do pedido de casamento e quando Bella se declara para Jacob. É realmente difícil conter a gargalhada. Falando em Jacob, olha, parece que o sucesso mexeu com a cabeça de Taylor Lautner. Com seu personagem mais convencido e prepotente, ele próprio se tornara assim. Sendo ele um péssimo ator, faz caras e bocas e expressões corporais como se estivesse atuando numa peça de Tennessee Williams. Coitado. Agora, desperdício de talento foi colocar a Bryce Dallas Howard no papel da ruiva Victoria e dar-lhe meros 20 minutos totais ao longo de quase 2 horas de filme. Por fim Eclipse continua sendo um monte de cocô. Só que dessa vez o colocaram num saco e jogaram no meio de uma sala lotada. Ainda causa nojo e repulsa, mas acabou sendo engraçado da forma como foi armado. Boa sorte Bill Condon! NOTA: 8,0
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domingo, 29 de agosto de 2010
Eclipse
Meus amigos costumam perguntar por que eu gasto meu dinheiro vendo os capítulos da saga Crepúsculo no cinema. Como resposta, e com a convicção de um doutor em sociologia, respondo que enfrentar a histeria hormonal coletiva é uma experiência antropológica. E é mesmo. Quando me dispus a assistir Eclipse, quase um mês depois de seu lançamento, todo o furor já havia passado. Mas ainda assim, com a sessão quase vazia, dava para sentir de forma sobrenatural os suspiros e gritinhos das meninas. E isto só prova uma coisa: os filmes dos vampirinhos apaixonados que brilham à luz do sol são realmente um fenômeno. E só são porque, como já havia dito antes, cada fotograma é milimetricamente programado para agradar seu público-alvo. Não há no texto conteúdo cerebral qualquer ou algum traço de liberdade criativa na direção. É tudo muito bonitinho, mas nem um pingo saudável. Como um hambúrguer de fast food. Eclipse não apresenta uma evolução esperada para continuações de uma série. É só mais do mesmo, mais uma vez. É impressionante como até certos enquadramentos são semelhantes com alguns dos outros capítulos. E mesmo sabendo que os filmes desagradam boa parte da ala masculina - aqueles que não vêem sentido ou explicação naquela novela mexicana travestida de filme de monstro, aprendi a vê-los de forma diferente: não os levando a sério. E, vamos ser francos, não há por que levá-los a sério. Tomei Eclipse por comédia-romântica (sério!). E visto por esta ótica, o filme se torna até bem divertido. Devo admitir que Eclipse seja sim o mais divertido dos três. Quando o diretor David Slade assumiu o comando deste episódio, surgiu a esperança (vã) de que, pelo currículo do cara (é dele o sangrento 30 Dias de Noite), a saga tomasse um rumo surpreendente ou inesperado. Mas não. Como é um produto de estúdio, nada de sangue jorrando ou altas doses de adrenalina, apenas romance capenga e piegas com algumas pitadas de ação parca e um blábláblá explicativo desnecessário que menospreza a inteligência da platéia (se é que há vida inteligente dentre os fãs de Crepúsculo). Resumindo, tudo muito asséptico num filme ruim que se acha cool. David Slade por sua vez, tendo suas artérias e veias rompidas hemostasiadas, tratou de compensar sua frustração inserindo piadas ácidas que, de certo modo, só fariam sentido para aqueles que se sentem nauseados com os devaneios apaixonados de Edward e Bella. Alguns diálogos ainda continuam intragáveis, mas as piadinhas com os adolescentes valem o ingresso. O filme também não desperta tensão e nem procura dar raciocínio lógico aos acontecimentos. A cena de abertura atesta bem isto: é escura, mal editada e sem sentido aparente. A partir daí começa uma ciranda de bons contra maus misturada com romance casto e briga de egos narcisistas. Slade também não diz a que veio e, como um gato castrado, só mantém a preguiça dos longas anteriores. Tudo é mastigado demais (mesmo sabendo que o texto foi limado ao extremo), há closes dispensáveis, travellings sem sentido, a edição é por vezes acelerada e a trilha é pop deprê demais. Mas num filme feito para adolescentes, quem vai ligar pra isso? Mesmo assim há momentos de pura diversão. Momentos que antes causavam um embrulho no estômago por serem tão clichês acabam provocando um riso involuntário, como nas cenas do beijo roubado, do pedido de casamento e quando Bella se declara para Jacob. É realmente difícil conter a gargalhada. Falando em Jacob, olha, parece que o sucesso mexeu com a cabeça de Taylor Lautner. Com seu personagem mais convencido e prepotente, ele próprio se tornara assim. Sendo ele um péssimo ator, faz caras e bocas e expressões corporais como se estivesse atuando numa peça de Tennessee Williams. Coitado. Agora, desperdício de talento foi colocar a Bryce Dallas Howard no papel da ruiva Victoria e dar-lhe meros 20 minutos totais ao longo de quase 2 horas de filme. Por fim Eclipse continua sendo um monte de cocô. Só que dessa vez o colocaram num saco e jogaram no meio de uma sala lotada. Ainda causa nojo e repulsa, mas acabou sendo engraçado da forma como foi armado. Boa sorte Bill Condon! NOTA: 8,0 quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Lua Nova
Domingo. Começo de noite abafado. Uma fila quilométrica para entrar. Sessão lotada. Ansiedade. Dois terços do público ali presente deveriam ter metade da minha idade. Metade da platéia era do sexo feminino. Gritos histéricos. Suspiros abafados. Sussurros engraçadinhos. Um cheiro desagradável de biscoito recheado sabor morango pairava no ar. Filme dublado. Sentiu o drama? Esta foi a minha sessão de Lua Nova.Lua Nova não é o filme do ano. Definitivamente não. Não tem os melhores efeitos especiais (todavia superiores ao primeiro filme), não é bem cuidado, não é bem tratado, o roteiro de Melissa Rosenberg é premeditado e as interpretações passam longe de algo convincente, fazendo até o pior ator de Malhação enrubescer. Mesmo assim é um sucesso. Como explicar? Sem falar que nem o próprio romance dos protagonistas, tão badalado e alardeado, tem tanta ênfase na trama. Lua Nova é um lixo de luxo, um produto desleixado com excesso de autoconfiança. Presunçoso, prepotente e um enorme sucesso. E no meio dessa história toda sinto que o chato sou eu. Investiram mais dinheiro, corrigiram os erros, melhoraram o pouco que tinha de bom, intensificaram a ação (embora ainda dê certa aparência de descaso), puseram um diretor mais experiente no comando (Chris Weitz, dono de um currículo eclético que vai de American Pie a A Bússola de Ouro) e no frigir dos ovos deram vida a um filme vazio, sem conteúdo significativo, que aposta (e apela desmedidamente) no retorno do público feminino. É um upgrade do mais do mesmo.
A trama dessa vez enfoca o relacionamento de Bella e Jacob Black (o péssimo Taylor Lautner). O elitismo caucasiano vampiresco é deixado um pouco de lado para o surgimento da raça dos lobisomens. Após um fora de Edward e de noites infindáveis de depressão e pesadelos, a insossa heroína encontra refúgio na amizade sincera de Jacob. Daí sai a metáfora sobre a castidade e entra quase que indiscretamente uma nova sobre a afloração dos hormônios. Jacob se metamorfoseia num lobo raivoso depois de sentir atração (excitação?) por Bella. Corta o cabelo, se tatua, começa a comportar-se de forma mais rude (ui!) e ganha massa muscular. Isto, é bom ressaltar, é mera desculpa esfarrapada para a exibição gratuita e sem fundamento de tórax e abdomens sarados para levar o mulheril ao ensandecimento. Entenda-se, apelação.
De alguma forma, isto pode até fazer algum sentido. Vejamos: Edward é romântico, cavalheiro e culto. Jacob é solitário e bruto, porém apaixonado. E na confusão de sentimentos, Bella se vê dividida entre o pálido e gélido vampiro e o bronzeado e aquecedor lobisomem. A tradução do sonho de qualquer adolescente, que é ser disputada por dois homens que carregam consigo as características opostas que elas tanto admiram. Mas vamos falar sério, o que diabos esses dois caras viram na Bella? Ela é uma garota sonsa, lerda, desequilibrada, desastrada e carrega sempre a mesma expressão compungida. Se a Bella é o arquétipo das adolescentes de hoje, Deus, que raios de mulheres elas serão no futuro? Mas há alguns momentos de ação! E eles, de certo modo, compensam a falta de algo mais interessante no enredo. Porém não apagam o constrangimento da hemorragia de frases clichês que escorre da tela. No fim, a única coisa digna de nota no filme é a presença enigmática e andrógina dos Volturi, a casta mais nobre dos vampiros. Ali, naquele instante em que roubam a cena, esquece-se um pouco do sentimentalismo piegas e concentra-se na mitologia atualizada dos sugadores de sangue. Fim. Quer ir com sua namorada, boa sorte, o risco é seu. Mas lembre-se de levar um I-Pod junto. Ele pode lhe ser de grande valia.
NOTA: 7,5
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Crepúsculo
Bom, falar de Crepúsculo em tempos de Lua Nova é algo um tanto ultrapassado. Mas, visto que o estrondoso sucesso do segundo filme da saga elevou Stephenie Meyer ao status de J.K. Rowling, resolvi tirar a crítica do primeiro filme do limbo e postar com um ano de atraso. Quero que fique bem claro que nunca foi intenção minha expô-la aqui. Não assisti ao filme no cinema, apenas em DVD. E atualmente nem ando colocando resenhas de filmes que assisto em casa. Mas o lançamento de Lua Nova me fez resgatar aquele velho insight, já um tanto apagado e esquecido, reavaliá-lo e colocar à mostra pra quem quiser ver.Crepúsculo é tipo de filme que todo mundo gosta de denegrir, mas no fundo adora. Eu admito que pessoalmente relutei bastante em vê-lo, mas acabei cedendo. Não foi por preconceito não, foi puro desinteresse na trama. Trama que, aliás, não é mais nenhuma novidade. A diretora Catherine Hardwicke até que se esforça para fazer um trabalho digno, autoral, mas é evidente que cada tomada, cada close, cada suspiro, enfim, cada detalhe foi milimetricamente planejado para o filme tornar-se um produto lucrativo e não uma obra de qualidade - se é que alguém acreditava nisto. O primeiro livro da saga, com sua prosa rápida e envolvente, não tinha foco de destino. Qualquer um que o lesse poderia gostar e ponto final. Mas ao ser adaptado para o cinema, naquele joguete típico de “vamos arrumar um público-alvo”, enxugaram a história e centraram no que os fãs queriam ver: o romance pueril entre Edward e Bella. Não que seja ruim, porém, constatando-se que o filme é um mero produto de entretenimento e não uma adaptação de respeito (como os capítulos 3, 4 e 5 de Harry Potter, por exemplo), isso chega a ser entediante. Mas a estratégia deu certo e o filme foi um sucesso. Se funcionou bem no primeiro, funcionará bem no segundo. E por aí vai.
Crepúsculo tem tomadas chatas e enjoativas - principalmente as aéreas da floresta, algumas até um tanto vergonhosas. Tem momento de dar sono. Mesmo assim é um filme mediano. As cenas de ação são apressadas e mal planejadas (culpa da total falta de experiência da diretora com as mesmas), mas até que convencem, principalmente no clímax. O filme ganha pontos mesmo cada vez que parte do clã de vampiros “do mal” entra em cena, e também por não estereotipar os adolescentes, fugindo do comum dos filmes que os têm como protagonistas. Falando neles, é inegável que Crepúsculo seja um filme teen e que agrade em sua maioria as mulheres. Não por causa da palidez plástica do Robert Pattinson, mas por conta do cavalheirismo extremo de seu Edward, sua forma de cortejar, de demonstrar amor por Bella, de lutar por ela e, claro, sua imensa força de vontade em não sorver seu sangue. E é aqui onde entra a metáfora da castidade criada pela autora que fez os livros da série viraram febre e as fãs soluçarem no escurinho do cinema. Edward é um príncipe encantado de presas afiadas e Pattinson até que segura bem a onda como galã da vez, apesar de certa canastrice em determinados momentos. Já a Bella de Kristen Stewart parece perdida, meio zonza, meio fora de órbita. Difícil dizer às vezes se as expressões que faz são de medo ou de admiração. A trilha sonora meio pop, meio emo dá uma levantadinha no astral do longa e seu desfecho, apesar de piegas, tem um diálogo agradável entre os protagonistas. Nada mais. Crepúsculo faz parte de um plano e ele está funcionado, como já disse Kevin Smith em sua genial palestra na Comic Con deste ano. Daí é só esperar mais do mesmo daqui pra frente.
NOTA: 7,0
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