Domingo. Começo de noite abafado. Uma fila quilométrica para entrar. Sessão lotada. Ansiedade. Dois terços do público ali presente deveriam ter metade da minha idade. Metade da platéia era do sexo feminino. Gritos histéricos. Suspiros abafados. Sussurros engraçadinhos. Um cheiro desagradável de biscoito recheado sabor morango pairava no ar. Filme dublado. Sentiu o drama? Esta foi a minha sessão de Lua Nova.
Lua Nova não é o filme do ano. Definitivamente não. Não tem os melhores efeitos especiais (todavia superiores ao primeiro filme), não é bem cuidado, não é bem tratado, o roteiro de Melissa Rosenberg é premeditado e as interpretações passam longe de algo convincente, fazendo até o pior ator de Malhação enrubescer. Mesmo assim é um sucesso. Como explicar? Sem falar que nem o próprio romance dos protagonistas, tão badalado e alardeado, tem tanta ênfase na trama. Lua Nova é um lixo de luxo, um produto desleixado com excesso de autoconfiança. Presunçoso, prepotente e um enorme sucesso. E no meio dessa história toda sinto que o chato sou eu. Investiram mais dinheiro, corrigiram os erros, melhoraram o pouco que tinha de bom, intensificaram a ação (embora ainda dê certa aparência de descaso), puseram um diretor mais experiente no comando (Chris Weitz, dono de um currículo eclético que vai de American Pie a A Bússola de Ouro) e no frigir dos ovos deram vida a um filme vazio, sem conteúdo significativo, que aposta (e apela desmedidamente) no retorno do público feminino. É um upgrade do mais do mesmo.
A trama dessa vez enfoca o relacionamento de Bella e Jacob Black (o péssimo Taylor Lautner). O elitismo caucasiano vampiresco é deixado um pouco de lado para o surgimento da raça dos lobisomens. Após um fora de Edward e de noites infindáveis de depressão e pesadelos, a insossa heroína encontra refúgio na amizade sincera de Jacob. Daí sai a metáfora sobre a castidade e entra quase que indiscretamente uma nova sobre a afloração dos hormônios. Jacob se metamorfoseia num lobo raivoso depois de sentir atração (excitação?) por Bella. Corta o cabelo, se tatua, começa a comportar-se de forma mais rude (ui!) e ganha massa muscular. Isto, é bom ressaltar, é mera desculpa esfarrapada para a exibição gratuita e sem fundamento de tórax e abdomens sarados para levar o mulheril ao ensandecimento. Entenda-se, apelação.
De alguma forma, isto pode até fazer algum sentido. Vejamos: Edward é romântico, cavalheiro e culto. Jacob é solitário e bruto, porém apaixonado. E na confusão de sentimentos, Bella se vê dividida entre o pálido e gélido vampiro e o bronzeado e aquecedor lobisomem. A tradução do sonho de qualquer adolescente, que é ser disputada por dois homens que carregam consigo as características opostas que elas tanto admiram. Mas vamos falar sério, o que diabos esses dois caras viram na Bella? Ela é uma garota sonsa, lerda, desequilibrada, desastrada e carrega sempre a mesma expressão compungida. Se a Bella é o arquétipo das adolescentes de hoje, Deus, que raios de mulheres elas serão no futuro? Mas há alguns momentos de ação! E eles, de certo modo, compensam a falta de algo mais interessante no enredo. Porém não apagam o constrangimento da hemorragia de frases clichês que escorre da tela. No fim, a única coisa digna de nota no filme é a presença enigmática e andrógina dos Volturi, a casta mais nobre dos vampiros. Ali, naquele instante em que roubam a cena, esquece-se um pouco do sentimentalismo piegas e concentra-se na mitologia atualizada dos sugadores de sangue. Fim. Quer ir com sua namorada, boa sorte, o risco é seu. Mas lembre-se de levar um I-Pod junto. Ele pode lhe ser de grande valia.
NOTA: 7,5
Bom, falar de Crepúsculo em tempos de Lua Nova é algo um tanto ultrapassado. Mas, visto que o estrondoso sucesso do segundo filme da saga elevou Stephenie Meyer ao status de J.K. Rowling, resolvi tirar a crítica do primeiro filme do limbo e postar com um ano de atraso. Quero que fique bem claro que nunca foi intenção minha expô-la aqui. Não assisti ao filme no cinema, apenas em DVD. E atualmente nem ando colocando resenhas de filmes que assisto em casa. Mas o lançamento de Lua Nova me fez resgatar aquele velho insight, já um tanto apagado e esquecido, reavaliá-lo e colocar à mostra pra quem quiser ver.
Crepúsculo é tipo de filme que todo mundo gosta de denegrir, mas no fundo adora. Eu admito que pessoalmente relutei bastante em vê-lo, mas acabei cedendo. Não foi por preconceito não, foi puro desinteresse na trama. Trama que, aliás, não é mais nenhuma novidade. A diretora Catherine Hardwicke até que se esforça para fazer um trabalho digno, autoral, mas é evidente que cada tomada, cada close, cada suspiro, enfim, cada detalhe foi milimetricamente planejado para o filme tornar-se um produto lucrativo e não uma obra de qualidade - se é que alguém acreditava nisto. O primeiro livro da saga, com sua prosa rápida e envolvente, não tinha foco de destino. Qualquer um que o lesse poderia gostar e ponto final. Mas ao ser adaptado para o cinema, naquele joguete típico de “vamos arrumar um público-alvo”, enxugaram a história e centraram no que os fãs queriam ver: o romance pueril entre Edward e Bella. Não que seja ruim, porém, constatando-se que o filme é um mero produto de entretenimento e não uma adaptação de respeito (como os capítulos 3, 4 e 5 de Harry Potter, por exemplo), isso chega a ser entediante. Mas a estratégia deu certo e o filme foi um sucesso. Se funcionou bem no primeiro, funcionará bem no segundo. E por aí vai.
Crepúsculo tem tomadas chatas e enjoativas - principalmente as aéreas da floresta, algumas até um tanto vergonhosas. Tem momento de dar sono. Mesmo assim é um filme mediano. As cenas de ação são apressadas e mal planejadas (culpa da total falta de experiência da diretora com as mesmas), mas até que convencem, principalmente no clímax. O filme ganha pontos mesmo cada vez que parte do clã de vampiros “do mal” entra em cena, e também por não estereotipar os adolescentes, fugindo do comum dos filmes que os têm como protagonistas. Falando neles, é inegável que Crepúsculo seja um filme teen e que agrade em sua maioria as mulheres. Não por causa da palidez plástica do Robert Pattinson, mas por conta do cavalheirismo extremo de seu Edward, sua forma de cortejar, de demonstrar amor por Bella, de lutar por ela e, claro, sua imensa força de vontade em não sorver seu sangue. E é aqui onde entra a metáfora da castidade criada pela autora que fez os livros da série viraram febre e as fãs soluçarem no escurinho do cinema. Edward é um príncipe encantado de presas afiadas e Pattinson até que segura bem a onda como galã da vez, apesar de certa canastrice em determinados momentos. Já a Bella de Kristen Stewart parece perdida, meio zonza, meio fora de órbita. Difícil dizer às vezes se as expressões que faz são de medo ou de admiração. A trilha sonora meio pop, meio emo dá uma levantadinha no astral do longa e seu desfecho, apesar de piegas, tem um diálogo agradável entre os protagonistas. Nada mais. Crepúsculo faz parte de um plano e ele está funcionado, como já disse Kevin Smith em sua genial palestra na Comic Con deste ano. Daí é só esperar mais do mesmo daqui pra frente.
NOTA: 7,0
É tudo questão de timing. Não tem essa de ser metido a engraçado, fazer o público rir a custa de palhaçadas histéricas ou de escatologia verbal. Para se fazer comédia o ator tem que ter timing, ser engraçado por natureza. E diferente do que muitos pensam, fazer comédia não é fácil. Não é para qualquer um. Do humor ingênuo de Chaplin e Keaton, passando pelo non sense do Monty Python, o pastelão dos Trapalhões, até o humor de confronto tão em uso atualmente, a comédia sempre está se reciclando, por mais que o que seja feito hoje em dia seja uma saraivada de tudo o que já foi feito antes. Mas ao se fazer humor com o improvável, surge um novo alento para nossos olhos. E quando um filme com três caras desconhecidos se torna uma das maiores bilheterias do ano com uma censura 18 anos, pode olhar que aí tem coisa.
Se Beber Não Case é o improvável do óbvio. É uma comédia pra lá de engraçada, sem nenhum nome tão conhecido no elenco, realizada por um diretor talentoso, porém apelativo, sem tanto apelo junto ao grande público. O diretor Todd Phillips tem no currículo apenas uma comédia digna de nota, Dias Incríveis, de 2003 (que, confesso, sou fã). Então não existe pressão nem expectativa da parte de ninguém no lançamento de qualquer projeto seu. Quando Se Beber Não Case estreou na surdina em pleno verão norte-americano, quem apostaria que um projeto sem nomes de peso iria fazer sucesso? Pois fez. Com uma premissa pra lá de manjada – uma despedida de solteiro que dá errado – nasceu a melhor comédia adulta do ano. E não se admire se você achar aquilo tudo familiar, qualquer semelhança com qualquer ressaca sua é mera coincidência.
A história começa quando quatro amigos resolvem celebrar o último dia de vida antes do casamento de um deles (Justin Bartha) em Las Vegas. O problema é que depois de uma noitada daquelas e de uma ressaca homérica, ninguém se lembra de absolutamente nada e, para piorar, o noivo sumiu. Se esta breve sinopse já te fez rir, prepare-se para as surpresas. Agora, diferente do filme-modelo dessa classe de comédias (A Última Festa de Solteiro, com Tom Hanks), Se Beber Não Case não foca na noite de esbórnia e luxúria dos amigos, e sim nas conseqüências da mesma. Os outros três sobreviventes interpretados por Bradley Cooper, Ed Helms e Zach Galifianakis (este último é um achado e desde já merece o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) partem numa epopéia pela cidade dos cassinos em busca de noivo e de descobrir o que realmente aconteceu. Acredite, quanto menos você souber a partir daqui melhor.
Se Beber Não Case é um caso extra nos cinemas. Uma comédia adulta, com pessoas adultas que se comportam como adultas. Por isso, nada de passar constrangimento com atitudes infantis. O constrangimento aqui se resume ao fato de um pileque apocalíptico ter praticamente acabado com a memória de uma farra espetacular. E é nesse outro quesito que a comédia ganha mais pontos. Todd Phillips não faz o óbvio de explicar a cada frame de filme o que houve na noite anterior, pelo contrário, ele reserva as piadas para o resultado e as seqüelas do que ocorreu. O destino do noivo e as diabruras dos outros três amigos ficam apenas na imaginação. Somos espectadores ativos da história e compartilhamos com eles a total falta de senso perante aquela ressaca. O que eles sabem é o que nós sabemos. E o que eles descobrem nós descobrimos com eles durante toda a projeção. O que é motivo de vergonha para eles, é motivo de riso para nós. E lá pelas tantas, já no fim do filme, quando já passamos por quase todo tipo de reação por conta daquela noite de loucuras e quando praticamente não importa mais o que realmente aconteceu, eles encotram a máquina digital que registrou tudo. E junto com eles fazemos uma promessa de ver aquilo por uma única vez e esquecer toda aquela infâmia. E é no ápice do final feliz, no subir dos créditos que reside toda a graça do filme. Se você não rachar o bico de tanto rir no fim do filme, pode procurar um analista. Ou o seu pulso. E se você achar que Se Beber Não Case é um filme chato e sem graça, não se preocupe. Ninguém vai notar se você sumir. Pode voltar pro Zorra Total que ninguém vai te crucificar por isto. Cê tá pagando, né!?
NOTA: 9,0
O dicionário da língua portuguesa classifica obra-prima como ‘a mais notável obra de um autor’. Raros foram os casos de artistas que, de tão geniais, criaram mais de uma. William Shakespeare, Leonardo Da Vinci, os Beatles, Alfred Hitchcock... e a Pixar. Ok, a Pixar Animation é um estúdio cinematográfico. Porém, o conglomerado de cabeças pensantes que ali trabalham ostenta com austeridade sua marca ao ponto de se omitirem como pessoas e lançam com este selo de qualidade uma nova obra-prima a cada ano. Up - Altas Aventuras é o mais novo clássico a seguir este padrão.
Contrariando qualquer aposta demérita numa história que tem como protagonista um senhor de 78 anos, o diretor Pete Docter surpreende a todos ao fazer funcionar a perfeição as aventuras capitaneadas por este improvável herói. E é incrível como a coisa realmente funciona bem. Carl Fredricksen é um viúvo rabugento e desolado a beira de ser mandado para um asilo quando resolve içar a casa com alguns milhares de balões e partir em busca do Paraíso das Cachoeiras, um ponto exótico entre o Brasil, Venezuela e Guiana, antigo sonho aventureiro de sua falecida esposa. Carl não quer apenas recuperar o tempo perdido, ele quer também, quase no fim da vida, encontrar a si mesmo. E ao levar consigo o garoto Russel como bagagem indesejada, ele não somente tem que aturar sua tagarelice como tem outra lição a aprender: lidar com um filho que nunca teve. Carl, com seus modos rudes e antiquados, é o total oposto de Russel, um escoteiro boa-praça precoce como as crianças de hoje em dia e cheio de bugigangas tecnológicas típicas de sua geração. Neste caso, os opostos definitivamente se atraem. E se completam. Russel busca a atenção e o carinho de um pai ausente e Carl carece exercer o dom paternal guardado no seu coração. E é na química entre essa dupla tão díspar que repousa toda a grandiosidade de Up.
Up não é só uma mera animação 3D, é uma homenagem às animações de antigamente, à arte absoluta de fazer cinema. Enquanto Wall*E ambicionava ultrapassar os limites entre realidade e ficção, Up em contraponto quer apenas contar uma bela história sobre superação ao mesmo tempo em que deixa uma bela mensagem sobre nunca ser tarde para realizar nossos sonhos. Oscilando momentos de humor genial (qualquer cena com Russel e a ave Kevin ou com a matilha de cachorros “falantes”) e melancolia (qualquer instante em que Carl senta para avaliar sua vida são de fazer chorar até o mais insensível dos adultos), o diretor Pete Docter reafirma a máxima de Walt Disney que diz que para cada sorriso deve haver uma lágrima. E a lindíssima e discreta trilha sonora de Michael Giacchino contribui significantemente para melhor fluência desses momentos. Up poderia ser a cereja no topo do bolo da Pixar, mas parece que esse delicioso bolo nunca chega ao fim. Up também marca o crepúsculo de uma fase e a aurora de uma nova dimensão. Up - Altas Aventuras desponta com folgas como o melhor filme do ano até aqui. Algo inquestionável. E o velho Walt, esteja onde estiver, deve estar cheio de orgulho de seus pupilos.
NOTA: 10
Existe uma música dos anos 1980 de autoria de Ritchie e Bernardo Vilhena chamada A Mulher Invisível. A letra não tem nada a ver com nada, fala de uma mulher invisível (!) que passa por tudo e por todos sem ser notada (!!). E numa das frases dessa música retrô-futurista os autores a descrevem como “pura energia”. Talvez tenha sido pensando nesta bendita frase que o diretor Cláudio Torres criou a personagem de Luana Piovani no filme A Mulher Invisível. E não. Antes que alguém pense que o filme é baseado na música, ou sequer tenha sido inspirado em sua letra, não. Apenas seus títulos são homônimos.
Em seu 3º longa-metragem (Traição não conta), Cláudio Torres mescla as qualidades de seus dois anteriores - a surrealidade do roteiro e o protagonista perdido em si de Redentor e a comédia escrachada de A Mulher do Meu Amigo - e funde tudo numa aposta mais lucrativa, porém arriscada: a comédia romântica. Para o papel principal convocou Selton Mello. Daí abre-se uma discussão: Torres fez isso como prova de confiança, já que o ator tem talento de sobra para entreter o público, ou como jogada de marketing, já que ele é garantia de bilheteria certa? Não se sabe. O fato é que Selton segura o filme inteiro nas costas sem fazer muito esforço. Ele interpreta Pedro, um jovem boa-pinta, bem de vida e feliz com a mulher de sua vida... até levar um baita fora dela e cair numa depressão desmedida. Ele perde a razão de viver e aos poucos vai perdendo tudo, o emprego, as coisas de casa, os amigos e a sanidade. E é aí que surge Amanda. Interpretada com certa presunção por Luana Piovani, a dita cuja é o expoente da mulher ideal: prestativa, carinhosa, tarada, vidrada em futebol, compreensiva e dedicada. Ah, e adora andar de lingerie pela casa. Maravilha! O problema, como bem sabemos, é que mulher ideal não existe e Amanda é apenas fruto da imaginação e do desespero de Pedro. E ele é o único que não sabe disto. Eis que as confusões estão apenas começando.
Não obstante o fato de Luana Piovani desfilar quase o tempo inteiro em trajes sumários, é Selton Mello quem é dono do filme inteiro. O cara é realmente demais e cria uma empatia instantânea com a platéia. Bom ator e ótimo comediante, Selton dá um show principalmente quando está atuando sozinho. Ele engraçado até quando não faz graça. As cenas da ida ao cinema e da descoberta da não existência de Amanda são de rachar o bico. O roteiro em si não traz nenhuma novidade, mas abre espaço suficiente para Selton brilhar. Além dele e de Luana, Torres também desenvolve bem os coadjuvantes, ancorando-os na personalidade esquizofrenicamente apaixonada de Pedro. Maria Manoella faz a vizinha xereta que nutre uma paixão platônica pelo protagonista; Vladimir Brichta interpretando pela enésima vez o canalha de bom coração é o melhor amigo e Fernanda Torres dá vida a um tipo de Vani mais “normal”. E mesmo apostando pesado na comédia, o diretor não foge do óbvio das regras dos romances e conclui a obra com um infalível final feliz. Se estas duas palavras juntas não te agradam, não tema, até lá você já tem comprada a piada e as inúmeras risadas compensam o desfecho clichê. De sobremesa, Cláudio Torres deixa uma música-chiclete do Ramones tocar ao longo dos créditos finais e empurra uma moralzinha básica de que uma desilusão amorosa pode doer, mas também pode ser bastante engraçada. Que atire a primeira pedra quem nunca se sentiu um boboca depois de um fora.
NOTA: 9,0