Uma regra bem aplicada com relação a um lançamento de um filme é que você jamais gere muita expectativa antecipadamente. O temor da frustração é até plausível. O primeiro Homem de Ferro é inegavelmente um ótimo filme, apesar da má impressão que deixava. Daí é impossível não almejar algo ainda melhor na seqüência - até porque o segundo trailer do filme deixa qualquer um salivando de ansiedade. Desde que assumiu o controle de suas próprias produções no cinema em 2008 a Marvel anda semeando terreno para a criação de um grande evento de seu universo (ganha um doce quem falou Vingadores). E mais uma vez aposta todas as suas fichas no poder do reator Ark no peito do Vingador Dourado. Homem de Ferro 2 segue a risca a regra das continuações dos filmes da editora/estúdio: é maior e melhor. Corresponde as expectativas e não decepciona. Sucesso again! Homem de Ferro 2 começa exatamente onde o primeiro terminou. Após se revelar ao mundo como o piloto do traje do herói de metal, Tony Stark enfrenta novos problemas. O governo deseja para si a tecnologia do traje; a principal concorrente da Stark Internacional, as indústrias Hammer, vê a oportunidade de fornecer armamento para o exército americano ao mesmo tempo que pretende controlar a tecnologia tão desejada pelo governo; sua exposição tira da sombra um antigo inimigo, além de o próprio Stark se ver envenenado pela mesma tecnologia que o mantém vivo. Com tanta coisa a acontecer é até de se esperar que o trem descarrile no decorrer do percurso. Mas não. O diretor Jon Favreau demonstra aqui total domínio na condução. Com mais liberdade e mais dinheiro na mão, ele não quis fazer uma seqüência que fosse maior apenas em tamanho e barulho, mas sim um filme superior também qualitativamente. E para isso manteve o mesmo padrão criativo do primeiro (até a abertura com uma música do AC/DC permanece, saindo ‘Back in Back’ e entrando ‘Shoot to Thrill’). Sem ter mais que se preocupar com origem, o diretor nos joga diretamente dentro da história como se fossemos bem íntimos de todo a mitologia do herói. Contando com o apoio de um elenco afiado - e completamente à vontade em seus papéis, Favreau abraça com confiança extrema o texto do ator/roteirista Justin Theroux e conduz o longa com experiência e carinho de fã. Algo que, convenhamos, é essencial num projeto desses. Homem de Ferro 2 parece ser um filme curto e rápido demais, só que não é. O seu desenrolar é que é bastante envolvente. E apesar da inserção de novos personagens e vilões (sim, vilões), Favreau não perde tempo com apresentações e nem se enrola nas subtramas. Tudo é bem desenvolvido e resolvido. Nem uma ponta fica solta. Longe de querer abraçar um tom realista, algo tão vigente em Hollywood, o diretor faz um filme de HQ no sentido mais amplo da palavra. Ele não quer, de maneira alguma, humanizar Tony Stark, muito menos tornar as ações do Homem de Ferro moralistas. Stark tem inúmeras falhas de caráter, é arrogante, prepotente, garanhão, egocêntrico e às vezes repulsivo. Ele não se tornou herói para aplacar o trauma de ser assim. Ele se tornou herói por acaso. E justamente por conta disto, abusa ainda mais dos adjetivos citados a pouco. Stark não sabe o verdadeiro peso da armadura que veste. Ele deu ao mundo paz, mas a mesma não é eterna. As ameaças que seguem são bem maiores do que ele possa esperar. Robert Downey Jr. mais uma vez dá um show na pele de Stark. Bem, ele basicamente já é o próprio Tony Stark. Seus diálogos com Gwyneth Paltrow (outra que também está perfeita no papel) são tão espontâneos que parecem todos improvisados. Don Cheadle entra para substituir Terrence Howard como o Coronel James Rhodes e, quer saber, não nos faz nem notar. Ele abraça tão bem o personagem que parece ter vindo junto com o time do primeiro filme. Sem falar que ainda teve o prazer de vestir a armadura da Máquina de Guerra e lutar ao lado (e de igual pra igual) com Tony Stark. Samuel L. Jackson retorna com mais tempo como Nick Fury e dá ao papel aquele sarcasmo típico do personagem. Quanto aos novatos, Scarlett Johansson como a Viúva Negra já mostra porque merece estar na equipe dos Vingadores em 2012 e pela primeira vez é bem aproveitada num filme de ação (sim, ela arrebenta alguns traseiros de forma espetacular) e Mickey Rourke não passa do trivial no papel de Ivan Vanko (mas deve ter se divertido um bocado com aqueles chicotes eletrificados). Mas quem rouba o filme mesmo é Sam Rockwell como Justin Hammer. Falastrão, ambicioso e inescrupuloso, o ator desaparece como o típico vilão de HQs sem poderes, daqueles que acham que podem dominar o mundo e que ninguém pode detê-los. É um caricato bem interpretado. E ainda equilibra de forma incomum um tom ingênuo e megalômano. As cenas de ação continuam poucas, mas são infinitamente superiores as do primeiro filme. O filme vai numa crescente alternado bem os ótimos diálogos com as ótimas cenas de ação até culminar num gigantesco ápice no alucinante clímax final com Stark e Rodhes, cada um em sua armadura, dando cabo de uma hoste de armaduras-robô deixando qualquer fã de quadrinhos em estado de graça. Homem de Ferro 2 não é só a seqüência de um sucesso da Marvel, é o filme da Marvel, aquele que abre as portas para algo maior que está para vir. É o carro abra-alas do desfile do universo Marvel que chegará a apoteose com Os Vingadores. Duvida? Alguém aí esperou pra ver o martelo do Thor no final dos créditos? NOTA: 9,0 domingo, 6 de junho de 2010
Homem de Ferro 2
Uma regra bem aplicada com relação a um lançamento de um filme é que você jamais gere muita expectativa antecipadamente. O temor da frustração é até plausível. O primeiro Homem de Ferro é inegavelmente um ótimo filme, apesar da má impressão que deixava. Daí é impossível não almejar algo ainda melhor na seqüência - até porque o segundo trailer do filme deixa qualquer um salivando de ansiedade. Desde que assumiu o controle de suas próprias produções no cinema em 2008 a Marvel anda semeando terreno para a criação de um grande evento de seu universo (ganha um doce quem falou Vingadores). E mais uma vez aposta todas as suas fichas no poder do reator Ark no peito do Vingador Dourado. Homem de Ferro 2 segue a risca a regra das continuações dos filmes da editora/estúdio: é maior e melhor. Corresponde as expectativas e não decepciona. Sucesso again! Homem de Ferro 2 começa exatamente onde o primeiro terminou. Após se revelar ao mundo como o piloto do traje do herói de metal, Tony Stark enfrenta novos problemas. O governo deseja para si a tecnologia do traje; a principal concorrente da Stark Internacional, as indústrias Hammer, vê a oportunidade de fornecer armamento para o exército americano ao mesmo tempo que pretende controlar a tecnologia tão desejada pelo governo; sua exposição tira da sombra um antigo inimigo, além de o próprio Stark se ver envenenado pela mesma tecnologia que o mantém vivo. Com tanta coisa a acontecer é até de se esperar que o trem descarrile no decorrer do percurso. Mas não. O diretor Jon Favreau demonstra aqui total domínio na condução. Com mais liberdade e mais dinheiro na mão, ele não quis fazer uma seqüência que fosse maior apenas em tamanho e barulho, mas sim um filme superior também qualitativamente. E para isso manteve o mesmo padrão criativo do primeiro (até a abertura com uma música do AC/DC permanece, saindo ‘Back in Back’ e entrando ‘Shoot to Thrill’). Sem ter mais que se preocupar com origem, o diretor nos joga diretamente dentro da história como se fossemos bem íntimos de todo a mitologia do herói. Contando com o apoio de um elenco afiado - e completamente à vontade em seus papéis, Favreau abraça com confiança extrema o texto do ator/roteirista Justin Theroux e conduz o longa com experiência e carinho de fã. Algo que, convenhamos, é essencial num projeto desses. Homem de Ferro 2 parece ser um filme curto e rápido demais, só que não é. O seu desenrolar é que é bastante envolvente. E apesar da inserção de novos personagens e vilões (sim, vilões), Favreau não perde tempo com apresentações e nem se enrola nas subtramas. Tudo é bem desenvolvido e resolvido. Nem uma ponta fica solta. Longe de querer abraçar um tom realista, algo tão vigente em Hollywood, o diretor faz um filme de HQ no sentido mais amplo da palavra. Ele não quer, de maneira alguma, humanizar Tony Stark, muito menos tornar as ações do Homem de Ferro moralistas. Stark tem inúmeras falhas de caráter, é arrogante, prepotente, garanhão, egocêntrico e às vezes repulsivo. Ele não se tornou herói para aplacar o trauma de ser assim. Ele se tornou herói por acaso. E justamente por conta disto, abusa ainda mais dos adjetivos citados a pouco. Stark não sabe o verdadeiro peso da armadura que veste. Ele deu ao mundo paz, mas a mesma não é eterna. As ameaças que seguem são bem maiores do que ele possa esperar. Robert Downey Jr. mais uma vez dá um show na pele de Stark. Bem, ele basicamente já é o próprio Tony Stark. Seus diálogos com Gwyneth Paltrow (outra que também está perfeita no papel) são tão espontâneos que parecem todos improvisados. Don Cheadle entra para substituir Terrence Howard como o Coronel James Rhodes e, quer saber, não nos faz nem notar. Ele abraça tão bem o personagem que parece ter vindo junto com o time do primeiro filme. Sem falar que ainda teve o prazer de vestir a armadura da Máquina de Guerra e lutar ao lado (e de igual pra igual) com Tony Stark. Samuel L. Jackson retorna com mais tempo como Nick Fury e dá ao papel aquele sarcasmo típico do personagem. Quanto aos novatos, Scarlett Johansson como a Viúva Negra já mostra porque merece estar na equipe dos Vingadores em 2012 e pela primeira vez é bem aproveitada num filme de ação (sim, ela arrebenta alguns traseiros de forma espetacular) e Mickey Rourke não passa do trivial no papel de Ivan Vanko (mas deve ter se divertido um bocado com aqueles chicotes eletrificados). Mas quem rouba o filme mesmo é Sam Rockwell como Justin Hammer. Falastrão, ambicioso e inescrupuloso, o ator desaparece como o típico vilão de HQs sem poderes, daqueles que acham que podem dominar o mundo e que ninguém pode detê-los. É um caricato bem interpretado. E ainda equilibra de forma incomum um tom ingênuo e megalômano. As cenas de ação continuam poucas, mas são infinitamente superiores as do primeiro filme. O filme vai numa crescente alternado bem os ótimos diálogos com as ótimas cenas de ação até culminar num gigantesco ápice no alucinante clímax final com Stark e Rodhes, cada um em sua armadura, dando cabo de uma hoste de armaduras-robô deixando qualquer fã de quadrinhos em estado de graça. Homem de Ferro 2 não é só a seqüência de um sucesso da Marvel, é o filme da Marvel, aquele que abre as portas para algo maior que está para vir. É o carro abra-alas do desfile do universo Marvel que chegará a apoteose com Os Vingadores. Duvida? Alguém aí esperou pra ver o martelo do Thor no final dos créditos? NOTA: 9,0 sábado, 17 de abril de 2010
Os 10 que definiram os 2000
Bem, enquanto os filmes de 2010 não aportam nos cinemas de uma vez, eu resolvi fazer algo da moda na Internet para não deixar as atualizações deste blog tão relapsas: uma lista. Todo mundo tem um pouco de Rob Gordon dentro de si. O célebre personagem criado pelo autor inglês Nick Hornby e personificado no cinema por John Cusack tinha a indefectível mania de fazer lista pra tudo. Eis que entre os cinéfilos blogueiros isto também é rotina e eu resolvi aderir a parada criando a minha também. Tudo bem que já estamos quase no fim do 4º mês do ano, mas esta lista eu criei no fim de 2009, mantendo uma tradição que eu mesmo perpetuei dez anos antes, que era pensar em 10 filmes que em sua essência fossem a cara da década que passou, ou que, de certa forma, fossem responsáveis por trilhar o percurso da década, seja pelo sucesso, impacto ou revolução que causaram. Foi difícil. Lista é sempre motivo de polêmica pra todo mundo, você nunca consegue ser justo. Ou esqueceu alguém, ou ignorou alguém, ou pôs um filme que não merecia estar ali... As discussões estão abertas! Aqui estão, na minha mais que humilde opinião, os 10 filmes que definiram a primeira década do século XXI:
1. Amnésia (Memento, EUA, 2000)
De Christopher Nolan.
1. Amnésia (Memento, EUA, 2000)
De Christopher Nolan.
2. Trilogia O Senhor dos Anéis
(The Lord of the Rings Trilogy, EUA, 2001/2002/2003)
De Peter Jackson.
(The Lord of the Rings Trilogy, EUA, 2001/2002/2003)
De Peter Jackson.
3. Shrek (EUA, 2001)
De Andrew Adamson.
De Andrew Adamson.

4. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain
(Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, FRA, 2001)
De Jean-Pierre Jeunet.
8. Wall*E (EUA, 2008)
De Andrew Stanton.
De Andrew Stanton.
* Breve colocarei um micro-texto explicando o motivo de cada um estar aqui.
domingo, 14 de março de 2010
Sherlock Holmes
Sabe, no pouco tempo que me sobra pra pensar eu andei avaliando que essa moda de reinvenção de personagens já está se tornando um tanto clichê. Deixe-me explicar: os produtores dizem que querem “atualizar” um personagem célebre para os novos tempos e de repente ele vira um herói de ação estilo John McClane, sem medo do perigo e disposto a arriscar sua vida muitas vezes por um motivo fútil. E aí vem a pergunta: será realmente necessário destruir a essência de um personagem, sua elegância retrô, seu caráter irrevogável, em prol do entretenimento lucrativo? Quando a reinvenção adéqua a mitologia aos tempos atuais a história é outra (vide os casos de Batman e Star Trek). Mas quanto aos personagens, vê-los transformados em brutamontes intelectuais é por demais estranho. James Bond e agora Sherlock Holmes que o digam. Se a onde é desmitificar o personagem não vai tardar para vermos Hercule Poirot (o sagaz detetive dos livros de Agatha Christie) sair na porrada com seus desafetos.Sherlock Holmes pode até ser um caso extra. Desde que foi criado por Sir Arthur Conan Doyle que ele passa por transformações em outras mídias, seja no teatro, na TV, no cinema ou até mesmo na literatura. Só para citar exemplos recentes, ele já ganhou uma juventude acelerada em O Enigma da Pirâmide (filme de Barry Levinson de 1985), os maneirismos de um português em O xangô de Baker Street (livro de Jô Soares) e ganhou agilidade equivalente a astucia na história criada por Lionel Wigram na qual se baseia o novo filme do Guy Ritchie. Holmes na pele de Robert Downey Jr. ganhou certa americanização. De certo modo ainda é o mesmo Sherlock Holmes que conhecemos. Mora no apartamento 221B da Rua Baker, adora violino, fuma um cachimbo torto, é hábil no boxe, um exímio espadachim, é arrogante e presunçoso. Só que menos elegante e sisudo. Causa certa estranheza ver aquele detetive introspectivo se tornar um herói audacioso e por vezes trapalhão. E como um desequilibrado Downey Jr. mais uma vez tira de letra.
O doutor Watson também ganhou nova roupagem. No corpo de Jude Law ele deixa de ser o alívio cômico da dupla para, vejam só, se tornar o lado mais racional. Veterano de guerra, o médico agora não se esquiva de uma boa briga e não mede esforços para salvar seu amigo de alguma enrascada. E para não transformar o filme num produto para garotos, o diretor abre espaço para uma personagem feminina. A Irene Adler dos livros, antigo interesse romântico do detetive, ganha as curvas de Rachel McAdams. Só que agora sai a socialite fria e chantagista e entra no lugar uma ladra granfina, sensual e espevitada. Muda também a forma como Holmes a vê. Em vez de nutrir uma paixão platônica, agora ambos alimentam um sentimento forte de admiração recíproca, e chegam a soltar faíscas cada vez que encontram.
Apesar das mudanças de tom, Sherlock Holmes é um ótimo filme. Guy Ritchie tem um apuro técnico especial e o usa de forma genial em determinados momentos que, sem muita ousadia, não passariam de instantes banais. Em algumas cenas de briga, por exemplo, vemos como funciona a cabeça de Holmes ao estudar calculadamente cada movimento que irá fazer e a reação que o mesmo irá causar. A Inglaterra vitoriana de Guy Ritchie, em ápice da revolução industrial, é suja e caótica. Além de bastante sombria, graças à fotografia de Philippe Rousselot. Mas a trilha sonora eclética do mestre Hans Zimmer chega a torná-la festiva e bastante agitada. A trama gira em torno do vilão Lord Blackwood que assusta Londres com ocultismo e rituais satânicos. Cabe a Sherlock Holmes e ao Dr. Watson solucionar se esse mistério realmente envolve forças do mal ou é mero charlatanismo. A edição do filme é o seu maior trunfo, acompanhando o ritmo das observações e deduções do herói. As cenas de ação também não deixam a desejar, sendo bem movimentas e pinceladas com o humor involuntário típico do diretor. Sucesso nos cinemas e já com uma continuação nos trilhos (professor Moriaty vem aí!), Sherlock Holmes é assim: diferente e divertido. Ponto para o diretor que não perdeu as rédeas no comando de um blockbuster. E ainda conseguiu ser ele mesmo saindo da sombra do mais do mesmo. Eu disse que isso seria possível.
NOTA: 9,0
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Bastardos Inglórios
Depois que Quentin Tarantino deu Pulp Fiction ao mundo (uma versão anabolizada de Cães de Aluguel), o público, ávido por aquele estilo verborrágico e violento, esperou ansioso por um novo aperfeiçoamento, um novo Tempo de Violência. Triste decepção quando Jackie Brown estreou – um filmão, diga-se de passagem. Seis anos de hiato até Kill Bill. E justamente depois dele o mundo já não sabe mais o que esperar da mente do diretor. O que vier então, será de enorme agrado.Bastardos Inglórios é um deleite para qualquer amante do cinema. Não é ousadia dizer que é uma nova obra-prima do diretor. O filme é um atestado de competência, um certificado autenticado de maturidade. Da magistral cena de abertura ao irônico diálogo final, Tarantino se mostra cada vez afinado com a direção. E é impressionante como ele faz o filme que quer, sem ter que dar satisfação ou justificativa, querendo apenas ver aquilo que gosta e provar a si mesmo que consegue fazer uma obra melhor que a outra, independente do gênero. Tarantino é um gênio do cinema. Que me perdoem os amantes de Buñuel, Truffaut, Bergman, mestres incontestáveis da arte cinematográfica, mas o gênio em questão pertence a outro estilo, outra geração. Ele é um grande conhecedor da arte que, ao invés de reciclá-la em sua plenitude, reverencia o cinema B, um celeiro de idéias tão criativas quanto absurdas, mas nem por isso menos interessantes. Tarantino bebe da fonte de diretores cult, de mestres polêmicos e execrados. Tarantino consegue ser Kurosawa, Leone, Peckinpah e Scorsese sem jamais perder sua própria identidade. É atual e anacrônico quando quer.
Nesta fábula de guerra, Brad Pitt é o tenente Aldo Raine (um caipira canastrão sem uma gota sequer de glamour), líder de um grupo de rebeldes judeus que, distante e a parte do real enfoque da II Guerra Mundial, estão ali num propósito único e pessoal: matar o maior número de nazistas possível. O longa é dividido em capítulos que, vistos separados, poderiam funcionar como episódios individuais. Há sim conexão entre eles – um dá continuidade ao outro –, mas cada um tem detalhes que os tornam únicos, seja o ponto de vista, o estilo ou mesmo o modo como foram filmados. Tarantino capricha bem na ambientação em cada um deles. Sua câmera capta tudo, não deixa nada de fora ou fora de foco. Tarantino brinca de Kubrick a contento. Pudera, ele tem savoir-faire pra isso. A fotografia de Robert Richardson é aberta e límpida, destoando um pouco do que se normalmente exige de um filme de guerra. E a trilha sonora, como bem sabemos, é um personagem à parte nos filmes do diretor, que mistura os acordes de Enio Morricone com música erudita, marchas de guerra e David Bowie sem nunca soar absurdo. Cada música se encaixa perfeitamente na cena, como se tivesse sido criada exatamente para aquele momento. Os diálogos também são de uma fluidez fora do comum, nunca soando tediosos, mesmo em inglês, alemão, francês ou italiano. Há também a violência tarantinesca. Neste caso, longe de ser sádica, doentia ou exagerada, em Bastardos Inglórios ela é, por vezes, poética. O cinema de Quentin Tarantino é uma brincadeira só. E ainda há Christoph Waltz e Mélanie Laurent para roubarem a cena. O primeiro, no papel de um coronel da SS, é dono de qualquer seqüência em que esteja presente com um sarcasmo e cinismo brilhante. A segunda, no papel de uma gélida judia loira em busca de vingança, ilumina as cenas em que está presente com sua beleza. No fim Tarantino, mais uma vez, deu o melhor de si, subvertendo mais um gênero de forma especial. Seja com poesia, humor negro ou violência gráfica, Tarantino prova mais uma vez que é único e consegue fazer o que mais ninguém faz de forma genial. Uma pérola para se discutir durante longos dias nas rodas de amigos.
NOTA: 9,5
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Avatar
Em termos de narrativa Avatar não é nenhuma surpresa e é até, convenhamos, óbvio demais. É uma espécie de Dança com Lobos e O Último Samurai Sci-Fi. Cameron peca ao distinguir claramente os bons dos maus, deixando o roteiro com atmosfera infantil, além de abusar do romance deixando a história um tanto melosa. Mas no quesito visual, o diretor foi ao infinito e além. O mundo de Pandora é de uma perfeição inigualável. Em algumas cenas, tamanha a grandiosidade e a infinidade de detalhes minuciosos, é impossível não ficar boquiaberto. Cameron deu uma de Deus (na certa cansou de ser só “Rei”) e literalmente criou um mundo. O ecossistema de Pandora se assemelha um pouco ao da Terra, porém, sua fauna e sua flora, além claro da civilização nativa Na'vi, são de uma riqueza cristaliza e de um exotismo singular. Algo mágico. Um trabalho de design extraordinário. E visto que, com exceção dos atores, tudo foi criado por computador, chega até ser inacreditável que nada ali seja real de tão perfeito. E a fotografia digital do filme realça ainda mais a falta de limites entre o real e o quimérico.
Na trama simples, Jake Sully (Sam Worthington, perfeito e com uma brilhante carreira pela frente) é um ex-militar paraplégico que é levado ao planeta Pandora, habitado pelo povo Na'vi, raça humanóide com língua e cultura próprias, em substituição a sua irmão morto, para estudo e exploração do local. E nesse lugar ele acaba lutando pela própria sobrevivência e pela preservação desse povo. Além de Worthington, Cameron também conta com a presença de Sigourney Weaver no papel da Dra. Grace Augustine, uma cientista brilhante já familiarizada com os Na'vi. A presença dela deixa o filme mais seguro e humano. E ainda dá a Stephen Lang o papel de sua vida ao interpretar o coronel casca-grossa Miles Quaritch, o suposto vilão do filme. Bem, suposto porque é nítida a intenção do diretor/roteirista de passar uma mensagem ecológica. Já que ele criou um mundo, não quer que o mesmo seja maculado ou devastado, e só uma espécie irracional destruiria tamanha beleza natural. Daí é a raça humana que ostenta o papel de vilão com sua ganância e intolerância desmedidas. Em busca dos recursos naturais do planeta, os executivos burocratas e o exército americano não vêem problema em explorar e destruir a biodiversidade de Pandora. E eles terão o que querem, nem que para isso tenham que promover um genocídio coletivo. Cabe a Jake a tarefa de ser o contraponto pacifista, nem que tenha que abandonar seu lado humano e lutar ao lado dos nativos.
Cameron criou um filme longo por demais. Aos desavisados de seu estilo eloqüente e um tanto soberbo, o longa-metragem pode ser um pouco enfadonho, tornado-se empolgante depois de sua metade. Mas quem foi contemplar a mais nova obra-prima do diretor em sua íntegra, em sua essência, mesmo que não tenha sido em 3D, saiu do cinema mais que satisfeito. Cameron, além de saber trabalhar com efeitos especiais como nenhum outro diretor, é ótimo na condução de atores, lida bem com os dramas dos personagens e conduz cenas de ação com maestria. A cena da destruição da árvore da civilização e o clímax final são espetaculares. Nada novidade para quem dirigiu O Exterminador do Futuro 2 e True Lies. Cameron também não deixa que os efeitos compensem os defeitos. Nada é jogado ao acaso. Basta lembrar que em Titanic o romance entre Jack e Rose não era mero pano de fundo para a tragédia, mas o oposto. Avatar é um espetáculo visual, um marco na história do cinema. Um clássico a ser lembrado não somente por ser uma revolução técnica, mas um filme de história simples e tocante banhado com o mais alto brilho visual. A espera compensou. Nossos sinceros parabéns, James Cameron. E viva a tecnologia!
NOTA: 10
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