sexta-feira, 15 de abril de 2011

Rio

Cá estamos de novo com a teoria de que o diretor brasileiro Carlos Saldanha levava bomba nas provas do ensino fundamental. Matéria da vez: Biologia. Só isto para justificar a inclusão de flamingos na fauna brasileira no seu novo filme, Rio. Mas convenhamos, somente um ornitólogo ou um chato de galocha se incomodaria com isto - ou teria a ocupação em detectá-los em meio a tantas aves. Afora este mínimo detalhe, Rio é um filme delicioso. Uma animação despretensiosa e bastante movimentada que traz bem impressa a assinatura de seu diretor, o brasileiro mais bem sucedido em Hollywood.

Rio é um filme que, como o título entrega, é ambientado no Rio de Janeiro. Como bom brasileiro (e carioca), Carlos Saldanha pintou a cidade maravilhosa com as suas reais cores e mostrou o Brasil que é vendido lá fora. Para a patrulha do politicamente correto, o diretor estereotipou nosso país. Mostrou um país alegre e cheio de ginga montado na dupla dinâmica samba/futebol. Um país que pára para ver um jogo da Seleção e um país que esquece os problemas internos e externos durante 4 dias ininterruptos para pular carnaval. Triste visão estrangeira. Mas, e ele por acaso mostrou alguma inverdade? Fora daqui ninguém estereotipa o Brasil, nós é que o fazemos desde a época do descobrimento. Nós mesmos é que passamos uma imagem irresponsável para os outros países. E depois que eles vêm nos mostrar quem somos queremos dizer que não somos assim. Por favor, francamente. A intenção de Saldanha foi mostrar de forma apaixonada - e não demérita - quem realmente somos. E uma coisa é certa: da primeira a última cena, Rio é uma declaração de amor ao Rio de Janeiro. A animação é tão perfeita que cidade parece ser real. Todos os seus detalhes e pontos turísticos estão lá. E claro, não poderia faltar o samba para deixar a cidade ainda mais bela e alegre.

Rio conta a história da arara azul Blu. Após um tráfico de animais desastrado, ele vai parar ainda filhote nos EUA, onde passa a ser criado por Linda. Como a maioria das aves criada longe do habitat natural, Blu não tem instintos e vive uma relação de dependência com sua dona. Até que aparece Túlio, um especialista em aves que deseja que Blu vá ao Brasil para procriar com a última fêmea da espécie. E é chegando ao Rio que a aventura começa. Ao conhecer Jade, a arara fêmea criada em cativeiro, Blu se vê envolvido numa imensa confusão. Os dois são seqüestrados, acorrentados, fogem e pouco a pouco vão se conhecendo e aprendendo um com o outro que instinto natural e criação caseira podem andar de mãos dadas. E, óbvio, se apaixonam. Mas antes de chegar lá eles tentam escapar da cacatua Nigel, e a medida que o despistam vão nos levando num passeio pela cidade e esbarrando em algumas figuras bastante excêntricas, e por que não tipicamente cariocas, como o canário Nico, o tucano Rafael e o Buldogue Luis. Além de um bando abusado de sagüis ladrões de turistas - se você como eu entendeu a analogia preconceituosa que fique apenas entre nós. O Rio de Janeiro de Rio é uma cidade quase etérea, onde até as favelas ganham certo glamour. Saldanha mostra a cidade em todo o seu esplendor ao longo da aventura e ampara tudo numa trilha sonora bem sambista (com direito a cantoria e tudo!) com algumas pitadas de bossa nova. O diretor nos insere entre as aves, nos conduzindo até a Marquês de Sapucaí para um clímax apoteótico, deixando a peteca cair só no final com um desfecho feliz bem moralista (oi, ainda é uma animação para crianças!). Um ponto interessante a ser dito aqui, é que, diferente de A Era do Gelo que é uma animação com peso na comédia, Rio é um pouco mais contido no humor. Saldanha se distancia do estilo da trilogia que o consagrou para focar mais nos sentimentos e na humanização dos personagens, remetendo a outro trabalho magnífico seu, Robôs. Todavia, as cenas engraçadas são de rolar de rir (espere para ver a inserção da música ‘Say You, Say Me’ de Lionel Ritchie). Rio é uma animação norte-americana com corpo e alma brasileiros. Leve e divertida, agrada a todos os públicos. E quanto aos flamingos? Bem, caíram no samba como todo mundo.

NOTA: 9,0

domingo, 20 de março de 2011

COMUNICADO

Gostaria de primeiramente desculpar-me com todos os que visitam meu humilde Blog pela demora nas atualizações das críticas. Gostaria de dizer também que, apesar da ausência de 3 meses, coloquei uma crítica recente, a de Cisne Negro. Aproveitando também a chegada de Tropa de Elite 2 em DVD, publico a resenha já feita desde Outubro do ano passado, época que assisti o filme no cinema. Outra crítica também antiga, a de Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1, só será publicada um pouco antes do lançamento da parte 2 em Julho, pegando carona na estréia. Gostaria de dizer que em breve o Blog estará com novidades estéticas aproveitando as estréias dos filmes de 2011. E prometo que serei mais pontual com as críticas. Saudações a todos e boa leitura.
Henrique Lima.

Cisne Negro

Bom, a essa altura não é mais nenhuma novidade o fato de Natalie Portman ter recebido o Oscar de Melhor Atriz por seu trabalho em Cisne Negro. O que poucos realmente sabem é que, sem desmerecer as demais concorrentes, a Academia foi mais do que justa. O Oscar não lhe foi dado por nenhuma estratégia de marketing, nem como pedido de desculpas por não ter sido premiada anteriormente. Natalie Portman ganhou por merecer. Seu trabalho neste filme é desafiador. Um trabalho que nas mãos de outra atriz menos talentosa, talvez não tivesse o mesmo impacto. Natalie é sincera em sua interpretação. É a dona de todo o longa-metragem. É a força da natureza que devasta toda a tela e segura e mantém a qualidade do filme. É o cisne que embeleza o lago.

Cisne Negro é um filme modesto. Falo isto não para desmerecê-lo, muito pelo contrário. Falo pelo fato de resgatar o cinema em sua essência como arte e não como espetáculo. Longe de ser uma superprodução, ou exibir técnicas cinematográficas inovadoras para surpreender a crítica, o filme do diretor Darren Aronofsky é simples e conciso. Conta uma história comum de uma bailarina que quer ascender na carreira e surpreende pela forma como é desenvolvido. E apesar de ter o balé e todo o seu mundo lírico e clássico como pano de fundo, não é um filme sobre dança. Ao abraçar uma estética mais independente para narrar a história de Nina Sayers (Portman), Aronofsky abandona de vez a idéia comercial e egocêntrica de fazer experimentalismos existencialistas (Fonte da Vida) e retoma as rédeas de sua carreira ao voltar ao tipo de cinema que o lançou. Cisne Negro não é um mero drama e pouco lembra a pieguice de filmes recentes sobre balé como Sob a Luz da Fama e Dançando para a Vida, por exemplo. Aronofsky criou um pesadelo imerso em toda a simplicidade e graciosidade do mundo da dança. Um horror psicológico onde sanidade e devaneio andam de mãos dadas. Uma obra delirante que pode não agradar a todos os públicos, mas que atesta certa maturidade de seu realizador.

Cisne Negro é por vezes onírico, a começar pelo seu prólogo. A excepcional cena de abertura inicia de forma sensível e vai ganhando ares assustadores no seu desenrolar. A cena mostra um pouco do que está por vir e um pouco da personalidade sonhadora e um tanto insegura da protagonista. Nina é uma bailarina dedicada e, de certo modo, ambiciosa. Ao ganhar o papel de Rainha Cisne numa nova versão de O Lago dos Cisnes, o apogeu de qualquer bailarina, ela sofre com a pressão externa e psicológica da responsabilidade. E é aqui que entra os trabalhos extraordinários do seu realizador e de sua intérprete. Nina vai se tornando aos poucos paranóica e passa a enxergar uma concorrência desleal vindo de Lily (Mila Kunis, sóbria). Mas Nina, mesmo sabendo que sua obsessão está lhe consumindo, continua sua busca pela perfeição na realização de seu sonho mesmo que isto resulte na deterioração de seu caráter ou mesmo na destruição de sua vida. Ao longo da jornada ao inferno pessoal da protagonista é impossível não notar as semelhanças propositais do diretor com os protagonistas de Pi e Réquiem para um Sonho, seus primeiros trabalhos. E é evidente a segurança com a qual o diretor confia o filme a Natalie Portman. A atriz realmente se entrega de corpo e alma a personagem. Apesar de um ou outro deslize de canastrice (principalmente quando a atriz insiste em carregar uma expressão chorosa de desespero), seu trabalho é primoroso. Aronofsky jamais a tira de foco, seja perseguindo-a como uma entidade ou rodopiando nauseantemente ao acompanhar seus passos de dança. A trilha sonora pontuada pelas músicas de Tchaikovsky dá o tom dramático da personagem e engrandece a soturnez da trama. Cisne Negro é um filme belo, denso e sombrio. Um trabalho feito com maestria e executado com precisão. Uma obra divina e marcante.

NOTA: 9,0

Tropa de Elite 2

Tropa de Elite 2 é um filme de macho! Não na aceitação de ser um filme de ação agressivo ou mesmo feito só para homens. É um filme vigoroso que remete ao tipo de cinema tenso, rude e viril exercitado, por exemplo, por diretores como John Huston, Sergio Leone e Walter Hill. Tropa de Elite 2 é um filme corajoso. É um drama de ação niilista que expõe a realidade nua e crua, sem arrodeios ou omissões, sem qualquer tom de sátira ou ativismo político. Tropa de Elite 2 escancara a realidade para nos fazer sentir vergonha das instituições que deveriam servir para nos amparar. É literalmente um soco no estômago de cada cidadão. Tropa de Elite 2 é o melhor filme brasileiro da década, quiçá do século. Digno de orgulho e capaz de superar seja em qualidade e estética, até o mais caro dos blockbusters norte-americanos.

Não dá para falar de Tropa de Elite 2 sem primeiramente falar de seu diretor, José Padilha. Padilha é, sem dúvida, o mais audacioso cineasta nacional em anos. Um filho bastardo da publicidade que ousou levar a crítica social a âmbitos reacionários adequando tudo a um cinema documental e estilístico. Padilha não tem medo de apontar o dedo na cara de alguém e muito menos culpar o poder público por sua própria degradação. E ao lado do roteirista Bráulio Mantovani criou uma história em que qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Só por isto merece ser ovacionado de pé. Tropa de Elite 2 era um filme de lucro certo, amparado pela aura do sucesso/polêmica do longa original de 2007. E mesmo com toda essa certeza, José Padilha não se acomodou em fazer um mero mais do mesmo. Deu uma guinada de 360º na história do BOPE e construiu um filme perfeito, superior a seu precursor. Outra salva de palmas para ele.

Passados mais de dez anos entre as duas histórias, o eixo principal pode ser o mesmo (a polícia e o BOPE), mas a temática agora é outra. Sai a criação do Batalhão de Operações Especiais e entra a criação da Segurança Pública. Padilha nos faz mergulhar nas entranhas da máquina do estado. Um mergulho de certo modo curioso e que aos poucos vai se tornando sádico até terminar por vergonhoso. Padilha expõe um mundo obscuro - o nosso mundo cotidiano! -, corrupto, inconseqüente, sujo e amoral. Um mundo que a gente sabe que existe e insiste em omitir. Um mundo onde fazer o dever de casa é manter a ordem política tradicional a cada dois anos, abdicando do bom senso e colocando sempre as mesmas pessoas ou gente incapaz (humoristas, artistas, jogadores de futebol) para reger a organização de tudo. Um mundo onde a violência, apesar de chocante, é corriqueira e natural. Uma violência desmedida e interminável, brutal e insensível, surgida não somente como resposta a ela própria, mas como forma justificativa dos meios. Um mundo que nós lemos nos jornais, nas revistas, assistimos na TV ou simplesmente contemplamos da janela.

Mas em meio a todo o caos há alguém que insurge com força para se opor ao conformismo. E no caso de Tropa de Elite 2 esse alguém é o tenente-coronel Nascimento. Nascimento é o nosso Superman, nosso James Bond, nosso Jason Bourne, nosso Jack Ryan. Nascimento é a indignação nacional. É o que cada um dos formadores de opinião gostaria de ser. Um personagem destemido e agressivo que não teme peitar os próprios colegas ou superiores, que não se omite na frente de bandidos ou políticos, até do maior deles se possível. De nada adiantaria ser a espinha dorsal do longa sem alguém que o fizesse com garra. Daí entra o trabalho extraordinário de Wagner Moura (sim, o melhor ator brasileiro da atualidade!). O baiano franzino desaparece para dar lugar ao carrancudo, rigoroso e incorruptível Nascimento. Ainda fascista e cada vez mais anti-social, Nascimento agora é secretário de segurança do estado do Rio de Janeiro. E é dali onde começa uma guerra pessoal contra o sistema, arriscando sua vida e a de sua família em nome da honra. Tropa de Elite 2 é um filme que precisa ser vivenciado não apenas pelos amantes do bom cinema, mas por todos os brasileiros. É um filme de discussões e teses. A melhor coisa que o Brasil produziu em 2010. Uma história que te faz querer ser um “caveira” e sair do cinema botando ordem em tudo. Só que fora da sala escura a esperança de paz ainda é um sonho distante. O mundo é aquele que vimos há pouco e que nos envergonha. E onde ninguém faz nada para mudar. Um sistema foda!

NOTA: 10

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A Origem

O melhor filme do ano! Não se espante caso esta frase traga uma sensação de déjà-vu, mas, pouco mais de dois anos depois do melhor filme do ano, Christopher Nolan conseguiu de novo. A Origem não é apenas o blockbuster mais cerebral e instigante de 2010, mas é uma trama original, o que a contento é um ponto mais que positivo em meio a enxurrada de remakes, continuações e adaptações que adornaram a temporada. Nolan, a exemplo de seu filme anterior, conseguiu subverter um gênero - no caso, os triviais filmes de roubo - e elevá-lo a outro patamar, dando-lhe aspecto de ficção científica dentro dos fundamentos da onirologia. Um filmaço.

Taxado e tratado como complexo, A Origem não é nenhum bicho de sete cabeças. Pelo contrário. Nolan não criou nenhum divisor de águas no cinema, apenas uma obra espetacular e original, com inteligência acima da média, e que, apesar de ser para todos os gostos, serei bem sincero, não é para qualquer um. Querer explicar A Origem é querer estragar a experiência. Experiência esta que necessita ser vivenciada por qualquer um que goste de cinema. Basta apenas que se saiba de seu enredo, onde um ladrão fugitivo internacional especializado em extração de segredos valiosos das profundezas do inconsciente durante o sono tem como último trabalho, sua chance de redenção, ao invés de roubar, conseguir implantar uma idéia na mente alguém. Como eu disse um pouco antes, não há nada de complicado. Nolan faz questão de entregar tudo bem mastigado, explicando detalhadamente cada passo a ser dado pelos personagens. E diferentemente do que se pense, que tanta informação possa deixar o desenrolar da história cansativo ou óbvio, um aviso: elas intensificam a “viagem”. Christopher Nolan caprichou na ambientação e passeia por diversas camadas da trama (graças a um trabalho excepcional de edição) sem jamais perder o foco principal. Acredite, você vai descobrir como é estar num sonho dentro de um sonho de um sonho.

Mas, de nada adiantaria uma bem estruturada narrativa sem o equilíbrio de um bom elenco. E em meio a um leque de ótimos atores (Ellen Page, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Michael Caine), quero destacar os excelentes trabalhos de Leonardo DiCaprio e Marion Cotillard. O primeiro, no papel do protagonista Dom Cobb, há muito se desvinculou daquela imagem de galã juvenil criada depois de Titanic. DiCaprio amadureceu, passou a escolher projetos ousados, trabalhou com diretores do alto escalão (Martin Scorsese, Ridley Scott, Steven Spielberg) e adquiriu confiança para assumir qualquer papel. E ao ganhar a oportunidade de ouro de Christopher Nolan de encabeçar o elenco de A Origem, provou mais uma vez que tem qualidade e merece os parabéns por desenvolver tão bem um personagem ambíguo e dar-lhe uma carga dramática bem dosada, sem exceder na pieguice. Já Marion Cotillard tinha um trabalho aparentemente mais fácil, porém, deu uma profundidade tão intensa a personagem que chegou a roubar as cenas cada vez que aparecia. Marion além de bela é uma atriz espetacular. No papel da esposa morta de DiCaprio, vista apenas como “a sombra” no mundo dos sonhos, ela abraçou toda a complexidade da personagem e deu-lhe uma energia além do exigido. Com seu olhar penetrante e meio blasé, conseguiu facilmente persuadir o protagonista e a platéia.

O diretor aproveitou as possibilidades impossíveis dos sonhos, além da inconsistência dos personagens neste mundo, para ampliar o grau de suspense da trama. Fã de enigmas e famoso por embaralhar seqüências, o diretor parece ter aprendido bem a lição com o mestre do suspense Alfred Hitchcock e criou o mais longo e tenso clímax da história do cinema. Com o apoio da trilha sonora ensurdecedora de Hans Zimmer, Nolan gerou um tour de force quase interminável, fazendo o público ficar na ponta da poltrona de tanta ansiedade. E apesar de todo tempo gasto, nada é jogado por acaso e a mente ainda passa por um processo de confusão de idéias. O diretor faz um jogo óbvio com você, ditando as próprias regras, embasbacando sua mente, inserindo alguns alívios cômicos genais (como as cenas dos personagens em estado REM na van numa perseguição alucinante) e te enchendo de detalhes para construir um verdadeiro quebra-cabeça. Ao final, depois do alívio de estar tudo resolvido, num caminhar para um happy end, depois de todas as idéias no lugar, Nolan ainda implanta uma dúvida no espectador. Fica a pergunta do personagem de Michael Caine em outro filme do diretor, O Grande Truque, como dica para quem não assistiu A Origem: “Você estava olhando com atenção?”. Pois é. E afinal, ele saiu ou não saiu?

NOTA: 10

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Os Mercenários

Alguém já deve ter percebido que quando se quer falar mal de algo encontramos sempre razões de sobra para fazê-lo. É exatamente assim com Os Mercenários. O longa-metragem dirigido por Sylvester Stallone, tido como o clash of the titans dos astros de ação, tinha em seu esboço descaradamente oitentista motivos óbvios para desconfiança - afinal, astros de filmes de ação musculosos e mal-encarados juntos não podiam resultar numa obra cerebral, correto!? E conferido na íntegra, deixa a impressão que o velho Sly está pouco se lixando para o que irão dizer, dando inúmeros pretextos ao longo dos 100 minutos de projeção para realmente falarem mal. O eterno Rambo pode ter sido até bem intencionado, mas não tem como não achar Os Mercenários ridículo. E olhe que nem pesou no meu descontento o tal comentário sobre os macacos.

Bem, Os Mercenários não é um filme de se desdenhar por completo, vá lá, ele até que tem seus momentos. Mas é curioso ver Stallone, após um grande filme sobre o peso da idade e redenção chamado Rocky Balboa, ainda ter a audácia de criar um roteiro em que se auto-proclama super-herói de ação indestrutível. Diferente de outros roteiros seus como Alta Velocidade ou Rambo IV em que o profissional superior sai da aposentadoria para provar que ainda é o tal, neste, seu personagem está na ativa, é o melhor no que faz e parece nem pensar em parar. Sly, ao que consta, deve sofrer do complexo de Narciso. E ao reunir um “dream team” dos filmes de ação (Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgren, Mickey Rourke, Randy Couture), criou um filhote bastardo dos anos 1980 com maquinário do século XXI. Stallone parece se garantir a cada novo filme que dirige, põe tudo no lugar certo, coreografa tudo corretamente e evita certos vícios de câmera; contudo, é no roteiro que ele comete o maior pecado. Ao amarrar toda a trama num fiapo de premissa (grupo de mercenários duros-na-queda são contratados para acabar com a ditadura de um país da América Central), Stallone dá margem a uma infinidade de problemas, onde nem os atores mais jovens conseguem sair ilesos.

É um problema grave. A intriga do filme é, de certo modo, juvenil demais. Stallone deu vida a um Esquadrão Classe A de brutamontes. O pior: com a maioria acima da idade e ainda fazendo coisas com a mesma desenvoltura que faziam 25 anos atrás. Ok, nenhum deles é ator shakespeariano, daí não importa se excedem na canastrice. Mas ver a brasileira Giselle Itié - que também não é nenhuma Fernanda Montenegro - apenas recitar diálogos em inglês com um sotaque portunhol, é vergonhoso demais. Stallone não desenvolve os personagens (pra quê mesmo?), por isto, nenhum dos atores merece destaque. As cenas de ação até que são bem desenvolvidas, apesar dos exageros. Ao menos ganhou o ingresso para sua exibição no Domingo Maior da Globo. A saraivada de tiros e explosões chega a ser ensurdecedora. Além do que, Stallone não amenizou na violência. Pra você que se excita com membros e cabeças decepadas em abundância eis o filme pornô ideal! O diretor/ator não é de meias palavras, e apenas justifica a ação com ação. E ainda suplanta as partes técnicas tentando engrandecer o filme. A trilha sonora, por exemplo, é excessivamente heróica fora de hora. Sem falar que ele, o próprio personagem principal, no alto de seus 64 anos, realiza proezas que, definitivamente, sua idade não permite - e ainda sai sem nenhum arranhão! Até os carros velhos do filme vão além de sua capacidade. Ninguém parece se importar de bancar o idiota. E Stallone ainda força os atores a proferir diálogos vexatórios (que fazem corar até os leitores de Stephanie Meyer) e entrecorta as cenas tensas com momentos ternos (esperem para ver Mickey Rourke se emocionar ao contar sobre uma vida que não salvou). E ainda temos o grande encontro dos grandes astros dos anos 1980. A cena que reúne Stallone, Schwarzenegger e Bruce Willis é uma tremenda decepção. Cheia de piadinhas irônicas sem graça, ela não funciona e nem é tão necessária à trama. Os Mercenários são como os músculos de um halterofilista anabolizado: tem tamanho e agressividade mas são uma farsa. Stallone criou o seu filme de macho dos anos 2000. Mas eu era que não queria ser mulher se só restassem esses caras no mundo.

NOTA: 6,0

domingo, 29 de agosto de 2010

Shrek para Sempre

É bem verdade que o casamento amolece o homem. E a paternidade o torna um bobão. Pois é, até com Shrek, quem diria, isso aconteceu. De ícone a farsa em menos de uma década. Uma lastima. Shrek sem dúvida foi o desenho em CGI que mudou os conceitos estabelecidos até então ao subverter os contos de fadas transformando-os em piada. Depois dele os longas de animação começaram a apostar mais na comédia e nas lições de moral através da inversão de valores (afinal, anti-heróis e vilões também sofrem de crise de existencialismo). Só que resolveram levá-lo ao altar e dar-lhe três rebentos. Resultado: Shrek virou chacota de si mesmo. Shrek para Sempre deixa a sensação indigesta de que a franquia poderia ter acabado lá em 2007.

O grande erro dos produtores neste suposto Capítulo Final foi se confiar demais no nome da franquia ao invés de bolarem uma história mais envolvente e criativa - como fizeram, por exemplo, com Toy Story 3. E também não observaram que a série já dava sinais de desgaste em Shrek Terceiro (culpa talvez da saída de Andrew Adamson da direção). Podem até ter corrigido alguns erros do longa anterior, todavia, a confiança exacerbada na “marca” gerou um produto sem convicção, com auto-estima demais, ambição demais (é o primeiro dos quatro em 3D) e desejo de agradar de menos. Aquele Shrek anarquista e grosseirão ficou no passado. O ogro agora tem uma vida pacata e enfastiosa igual a qualquer mortal que resolva casar e constituir família. Então, qual seria a aventura ideal para um cara pai de família e de vida nitidamente bucólica? Simples, tirando-lhe tudo e fazendo-o correr para recuperar. Ao moldarem o roteiro no melhor estilo A Felicidade Não se Compra, eles criaram uma trama excessivamente adulta com pouca diversão e sem trajetória consistente, com desenrolar óbvio e sem surpresas - Shrek quer apenas ter sua vidinha de volta. As crianças, não tão bobas quanto pensam, ficaram boiando.

O início do longa sintetiza bem isso ao mostrar o dia-a-dia da família Shrek. O que começa engraçado vai aos poucos se tornando cansativo e irritante, tanto para o ogro domado quanto para a platéia. Sem falar que o filme dá alguns pulos temporais estranhos (a trama começa realmente antes da parte dois e ignora a aventura anterior em partes). E ao entrar em cena o duende Rumpelstilskin, que guarda rancor do ogro por ele ter atrapalhado uma de suas falcatruas mágicas, nosso herói faz um pacto com o mesmo em troca de sua vida de solteiro por 24 horas. Mas o duende o engana e cria um mundo paralelo onde Shrek nunca nasceu, Fiona é líder de uma gangue de ogros rebeldes e o reino de Tão Tão Distante encontra-se em frangalhos. A partir daí a trama vira uma chatice só com Shrek tentando resgatar sua vida de volta ao descobrir, pasmem, que era feliz e não sabia. O diretor Mike Mitchell aposta bastante no romantismo para tentar agradar o público (só o beijo do amor verdadeiro trará tudo ao normal). E ao apostarem no duende traiçoeiro como vilão da vez, diretor e roteiristas esqueceram os pequenos fãs da série, já que seu nome impronunciável traria certa rejeição ao personagem.

O uso do 3D também não ajuda muito na fluidez da trama. As cenas de ação são meras desculpas para o efeito funcionar. E os personagens secundários ficaram a contragosto em segundo plano para que Shrek pudesse, novamente, fazer Fiona se apaixonar por ele. O Burro ficou insuportável e o Gato, agora sedentário e obeso, apenas repete seus cacoetes tão manjados. As poucas piadas às vezes funcionam bem. Há sim alguns momentos inspirados, como o fato das cúmplices de Rumpelstilskin terem TODAS as feições da Bruxa Má do Oeste de O Mágico de Oz (inclusive derreterem quando molhadas), a cena em que Shrek aproveita seu dia de ogro ao som de ‘Top of the World’ do The Carpenters, o moleque emburrado de voz rouca que pede insistentemente seu rugido e a inserção involuntária da música ‘Hello’ de Lionel Ritchie (acredite você vai rolar de rir!). Mas todo aquele cinismo e sarcasmo que fizeram a fama do ogro verde desapareceram, e quem agora ostenta a bandeira do politicamente incorreto é o amoral duende, de longe a melhor coisa do longa. Com um desfecho abusivamente otimista, Shrek para Sempre não fecha este último capítulo com chave de ouro. A série se encerra com um filme pouco divertido e meio desgostoso. Uma pena.

NOTA: 8,0

Eclipse

Meus amigos costumam perguntar por que eu gasto meu dinheiro vendo os capítulos da saga Crepúsculo no cinema. Como resposta, e com a convicção de um doutor em sociologia, respondo que enfrentar a histeria hormonal coletiva é uma experiência antropológica. E é mesmo. Quando me dispus a assistir Eclipse, quase um mês depois de seu lançamento, todo o furor já havia passado. Mas ainda assim, com a sessão quase vazia, dava para sentir de forma sobrenatural os suspiros e gritinhos das meninas. E isto só prova uma coisa: os filmes dos vampirinhos apaixonados que brilham à luz do sol são realmente um fenômeno. E só são porque, como já havia dito antes, cada fotograma é milimetricamente programado para agradar seu público-alvo. Não há no texto conteúdo cerebral qualquer ou algum traço de liberdade criativa na direção. É tudo muito bonitinho, mas nem um pingo saudável. Como um hambúrguer de fast food. Eclipse não apresenta uma evolução esperada para continuações de uma série. É só mais do mesmo, mais uma vez. É impressionante como até certos enquadramentos são semelhantes com alguns dos outros capítulos. E mesmo sabendo que os filmes desagradam boa parte da ala masculina - aqueles que não vêem sentido ou explicação naquela novela mexicana travestida de filme de monstro, aprendi a vê-los de forma diferente: não os levando a sério. E, vamos ser francos, não há por que levá-los a sério. Tomei Eclipse por comédia-romântica (sério!). E visto por esta ótica, o filme se torna até bem divertido. Devo admitir que Eclipse seja sim o mais divertido dos três. Quando o diretor David Slade assumiu o comando deste episódio, surgiu a esperança (vã) de que, pelo currículo do cara (é dele o sangrento 30 Dias de Noite), a saga tomasse um rumo surpreendente ou inesperado. Mas não. Como é um produto de estúdio, nada de sangue jorrando ou altas doses de adrenalina, apenas romance capenga e piegas com algumas pitadas de ação parca e um blábláblá explicativo desnecessário que menospreza a inteligência da platéia (se é que há vida inteligente dentre os fãs de Crepúsculo). Resumindo, tudo muito asséptico num filme ruim que se acha cool. David Slade por sua vez, tendo suas artérias e veias rompidas hemostasiadas, tratou de compensar sua frustração inserindo piadas ácidas que, de certo modo, só fariam sentido para aqueles que se sentem nauseados com os devaneios apaixonados de Edward e Bella. Alguns diálogos ainda continuam intragáveis, mas as piadinhas com os adolescentes valem o ingresso. O filme também não desperta tensão e nem procura dar raciocínio lógico aos acontecimentos. A cena de abertura atesta bem isto: é escura, mal editada e sem sentido aparente. A partir daí começa uma ciranda de bons contra maus misturada com romance casto e briga de egos narcisistas. Slade também não diz a que veio e, como um gato castrado, só mantém a preguiça dos longas anteriores. Tudo é mastigado demais (mesmo sabendo que o texto foi limado ao extremo), há closes dispensáveis, travellings sem sentido, a edição é por vezes acelerada e a trilha é pop deprê demais. Mas num filme feito para adolescentes, quem vai ligar pra isso? Mesmo assim há momentos de pura diversão. Momentos que antes causavam um embrulho no estômago por serem tão clichês acabam provocando um riso involuntário, como nas cenas do beijo roubado, do pedido de casamento e quando Bella se declara para Jacob. É realmente difícil conter a gargalhada. Falando em Jacob, olha, parece que o sucesso mexeu com a cabeça de Taylor Lautner. Com seu personagem mais convencido e prepotente, ele próprio se tornara assim. Sendo ele um péssimo ator, faz caras e bocas e expressões corporais como se estivesse atuando numa peça de Tennessee Williams. Coitado. Agora, desperdício de talento foi colocar a Bryce Dallas Howard no papel da ruiva Victoria e dar-lhe meros 20 minutos totais ao longo de quase 2 horas de filme. Por fim Eclipse continua sendo um monte de cocô. Só que dessa vez o colocaram num saco e jogaram no meio de uma sala lotada. Ainda causa nojo e repulsa, mas acabou sendo engraçado da forma como foi armado. Boa sorte Bill Condon! NOTA: 8,0

Toy Story 3

Eu chorei. Realmente o final de Toy Story 3 me fez chorar. É, mas acho que não fui o único. Sou até ousado em dizer que o adulto que não chorou das duas uma: ou não teve infância ou nunca teve um amigo de verdade. Isto é a Pixar, mais uma vez fazendo história e entrando para a história. Toy Story 3 é a primeira terceira parte de uma trilogia que não se utiliza da trama como mero fechamento de arco, pelo contrário, usa esta desculpa em benefício próprio para criar um desenrolar tão ou mais envolvente que o das aventuras anteriores, e de quebra se tornou a maior bilheteria do estúdio. Depois da obra-prima que foi Up - Altas Aventuras, a Pixar ensaiou um filme menor que ganhou altas proporções e emocionou mais que todos os outros.

Confesso que nunca vi muito sentido na produção de um Toy Story 3, principalmente quando a Disney em 2005, numa jogada desleal, anunciou que lançaria o filme sem o aval e a produção da Pixar. Meses depois a empresa de Steve Jobbs seria comprada pelo estúdio do Mickey por 7,4 bilhões, a parceria se consolidaria de vez e o assunto estava encerrado. Entretanto, a própria Pixar depois anunciaria a produção da nova aventura. Então, o que esperar desse novo encontro de Woody, Buzz e seus amigos sem o comando de John Lasseter? E sabendo que Toy Story 2 já tinha, de certo modo, concluído a série de forma perfeita. O diretor Lee Unkrich, co-diretor da parte dois, manteve o espaço de 10 anos que separa os dois capítulos na cronologia da história e levou a aventura para um caminho óbvio, porém instigante: o que aconteceria com os brinquedos quando Andy crescesse? E é justamente nesta premissa simples que reside toda a grandiosidade do longa. Unkrich direciona a história dos brinquedos para os adultos que há muito deixaram de brincar, sem esquecer de agradar as crianças que aprenderam a amar o caubói Woody e o patrulheiro do espaço Buzz graças a seus pais - que voltaram a ser criança em 1995 quando o primeiro Toy Story foi lançado.

A abertura do filme é simplesmente genial, com muita ação, emoção e humor mostrando a fundo como funciona a imaginação de uma criança brincando. Não se assuste caso você saiba os diálogos de cor porque eles remetem a abertura do primeiro longa, só que de forma mais inovadora. Os minutos iniciais também servem para provar que a Pixar tem força de peitar qualquer blockbuster do verão, não deixando a desejar perto de nenhum. E após vermos Andy em um momento de euforia absoluta com seus brinquedos, em alguns segundos o vemos crescer e se tornar um adolescente às vésperas de ir para a faculdade. Na verdade este segmento é uma brincadeira do diretor que sintetiza o passar dos anos, expondo bem o crescimento de Andy em comparação com o crescimento do estúdio num velho dizer dos pais de que “os filhos crescem sem que a gente perceba”.

Os heróis de Toy Story, postos a serem guardados para o resto da vida, mais uma vez lidam com dilemas humanos como abandono, exclusão e agora são obrigados a se adaptar às mudanças da vida, tendo ainda a amizade como foco principal. Com exceção de Woody, todos os brinquedos aceitam que Andy cresceu e vêem na creche Sunnyside a oportunidade de se sentirem novamente “vivos” brincando com crianças. O caubói destemido acaba indo por engano para a casa da menina Boonie e redescobre o prazer de brincar ao mesmo tempo em que vê seus amigos em apuros - a creche é mantida em regime ditatorial pelo vilão mais improvável do mundo, um urso de pelúcia cor-de-rosa que cheira a morango chamado Lotso (a cena que explica como Lotso surtou é ao mesmo tempo comovente e assustadora). Woody parte em resgate de seus amigos e descobre que sair de Sunnyside é tão intricado quanto fugir de alcatraz. Toy Story 3 vai numa crescente alternado momentos hilários (qualquer cena com o boneco Ken ou com Buzz no “modo latino”) e cenas de encher os olhos, culminando num clímax espetacular com direto a muita ação, reviravoltas chocantes e um instante de desesperança. A Pixar sabe bem como mexer com as emoções da platéia. E ao chegar ao seu desfecho, Toy Story 3 coroa o fechamento da trilogia com um epílogo de cortar o coração. A lição deixada (para os adultos), apesar do ‘crescer é inevitável’, é que mesmo na hora do adeus, nunca se é tarde para uma última vez. E que brincar e ser criança é uma delícia. Não se envergonhe se você vier às lágrimas, esta foi a intenção. Ser feliz não tem idade. E a Pixar, mais uma vez, provou que existe para fazer o público feliz.

NOTA: 9,5

Fúria de Titãs

Normalmente quando se pensa em fazer um remake de algum filme há sempre alguma justificativa racional para tal feito. Seja melhorar seu próprio trabalho (como Alfred Hitchcock fez com o seu O Homem que Sabia Demais), atualizar a história para as novas gerações (o que normalmente ocorre com filmes de terror, para a fúria dos fãs dos originais), modernização dos personagens (corriqueiro com séries de TV e franquias como Star Trek) ou mesmo novas versões completas de histórias ou livros já adaptados (como A Fantástica Fábrica de Chocolate, por exemplo). Mas, por incrível que pareça, existem remakes que não cabem em nenhuma dessas justificativas acima, ou seja, não existem razões cabíveis para sua existência. É uma refilmagem desnecessária. Cá estamos com Fúria de Titãs.

O filme de 1981, produzido pelo mestre Ray Harryhausen, pode até ser ultrapassado e kitsh para os dias de hoje, mas tem lá o seu charme. É um filme-pipoca daquele tempo. Daí não havia por que refazer a adaptação livre da saga de Perseu contra a ira dos deuses do Olimpo para salvar a princesa Andrômeda. Mas como em Hollywood tudo gira em torno do dinheiro, filmes perdem seu valor histórico para se tornarem peças de um jogo de Monopólio. Certos longas-metragens não precisam ser reapresentados a ninguém com nova roupagem. Quem quiser vê-lo que busque o original! É mais ou menos como ter que reescrever um livro famoso porque a linguagem usada não se enquadra no rebuscamento de hoje em dia. Bom, como todo esse discurso preservacionista não vai dar em lugar algum, vamos ao que interessa. Longe de ser um filme canhestro como O Dia em que a Terra Parou (outra refilmagem sem fundamento e justificativa), Fúria de Titãs até que diverte. Não pela história em si, mas pelos efeitos especiais impressionantes. No geral é um filme visivelmente exuberante, mas vazio de conteúdo.

Fúria de Titãs agrada desagradando. É um filme-pipoca na aplicação mais abrangente do termo, que consegue desgostar até aquele que resolveu deixar o cérebro em casa. O diretor Louis Leterrier com seu apuro técnico eloqüente é até bem intencionado (igual como fez em O Incrível Hulk), mas aqui, trabalhando como diretor de aluguel, se torna mero coadjuvante anti a ganância dos engravatados do estúdio em criar um samba-do-semi-deus-doido. A jornada do filme original está lá, só que o pretexto agora é outro. Sai o amor que Perseu tinha por Andrômeda e entra a vingança. Para bom entendedor, a modernização faz apologia à violência. Ao invés de ter que salvar o amor de sua vida, Perseu agora enfrenta os deuses (que observam tudo de um Olimpo celestial usando armaduras saídas da saga Os Cavaleiros do Zodíaco) para mostrar que é macho. Sai a canastrice do ator Harry Hamlin e entre o carisma de Sam Worthington. Bom ator e em franca ascensão na carreira, Worthington interpreta um Perseu bombado e carrancudo que mais parece um Pit Boy mitológico querendo descer o sarrafo em tudo e em todos que cruzarem o seu caminho. Rosna e profere algumas frases agressivas chegando a parecer um cão ensandecido prestes a avançar em alguém. E justamente por conta disto Fúria de Titãs se torna um filme rotulado, feito exclusivamente para a ala masculina - a testosterona que exala da tela chega a dar nojo. As mulheres do elenco são meros objetos de figuração em cena. Alexa Davalos como Andrômeda balbucia algumas frases e mantém a cada close uma inexpressiva cara sôfrega. Já Gemma Arterton até tenta ganhar espaço em cena como a imortal Io, mas não consegue fazer outra expressão senão a de uma boneca de porcelana.

Com relação ao restante do elenco, Liam Neeson não é nenhum Laurence Olivier, mas segura bem as pontas como Zeus. Mas é Ralph Fiennes quem rouba o filme cada vez que entra em cena como Hades. O ator mais uma vez dá vida a um vilão memorável. As cenas de ação também convencem apesar de às vezes serem desnecessariamente prolongadas, com destaque para o clímax gigantesco com o Kraken. E mesmo com a intenção de ser algo envolvente, o filme invariavelmente contém situações sem graça e apresenta algumas liberdades poéticas que profanam a mitologia - Andrômeda, por exemplo, foi acorrentada e não amarrada e içada. No fim fica a sensação de ter sido enganado. Fúria de Titãs entrete mas não empolga o suficiente. É como uma mulher bonita e burra. Você até fica com ela, mas a esquece depois de uma boa noite de sono.

NOTA: 8,0

Alice no País das Maravilhas

Cada vez que o diretor Tim Burton anuncia um novo projeto os críticos o desmoralizam antecipadamente, prenunciando que terá Johnny Depp, será colorido demais, ou sombrio demais, e, como bem se sabe, terá sua visão subversiva particular. Qualquer cinéfilo que se preze sabe que nada disto é bobagem. E Burton já tem experiência suficiente para não precisar provar mais nada pra ninguém. Se todos já sabem que sua visão artística singular altamente criativa é admirada e venerada por muitos, os estúdios agora o querem como objeto de luxo. Quando anunciou que faria uma versão de Alice no País das Maravilhas muita gente não viu a idéia com bons olhos. Porém, adentrando um pouco nas maluquices do mundo criado por Lewis Carroll, não há porque negar que este seria um projeto ideal para ele. Burton fez a lição de casa mais uma vez. O que ninguém imaginava era que ficasse tão bom.

Como fã dos trabalhos do diretor, confesso que nunca ignorei nenhum deles, por mais non sense que fosse (por exemplo, eu adoro Marte Ataca!). Mas como qualquer fã, também reclamo do fato de Burton dever uma obra original desde Ed Wood (ou desde Edward - Mãos de Tesoura). Alice no País das Maravilhas é uma típica obra de Tim Burton. Estão lá as cores berrantes em contraponto a estética soturna, os personagens bizarros, os cenários extravagantes, Danny Elfman no comando da trilha sonora e, claro, Johnny Depp e Helena Bonham-Carter. Para você que só conhece as aventuras de Alice do desenho da Disney de 1951, guarde essa lembrança bem escondida. A Alice de Tim Burton é uma espécie de continuação livre dos livros. Passados mais de 10 anos desde a última vez que visitou o País das Maravilhas, Alice, agora com 19 anos, descobre que está prestes a ser pedida em casamento. A partir deste início Burton criou uma obra íntima de visual suntuoso. Ao se aproveitar de um trocadilho gerado confusamente por Alice quando criança para definir aquele lugar mágico e exótico (a pequena o denominava Wonderland, sendo que na verdade ele se chama Underland, ou mundo subterrâneo), o diretor criou um mundo assustadoramente sombrio, tornando-o ainda mais excêntrico e ostensivo.

Alice (interpretada com carinho pela jovem Mia Wasikowska) é a típica heroína do diretor: descolada, contestadora, meio gótica e indecisa, tal qual a Lídia de Winona Rider em Os Fantasmas se Divertem. Nos minutos iniciais, quando a conhecemos, ela é taxada de sonhadora e rebelde por todos. Alice não quer que lhe imponham a felicidade, ela quer encontrá-la sozinha, esteja onde estiver. E ao cair novamente naquele mundo fantástico entrando pela Toca do Coelho Branco e tendo como missão reergue-lo das cinzas deixadas pela tirania da Rainha de Copas (Helena Bonham-Carter, bizarra), Alice talvez não a encontre, mas certamente tomará essa nova jornada como parte de seu amadurecimento, para assim definir o que quer e quem será no mundo real.

Burton também fez algumas mudanças em relação a alguns personagens. O Valete (interpretado por um Crispin Glover irreconhecível) virou um algoz impetuoso, enquanto o Chapeleiro Maluco faz as vezes de âncora da trama (afinal, ele é Depp!). Este último, digamos que seja um amálgama de todos os personagens interpretados por Johnny Depp sob a tutela de Burton. Os nuances e trejeitos dos papéis anteriores são repetidos quase que insistentemente pelo ator. Mas não tiram a mágica do personagem, ao contrário, o engrandece. E em meio a tantos pixels e maquiagens exageradas, a Rainha Branca de Anne Hathaway é quem mais se destaca. Excedendo-se o Gato Risonho, ela é a personagem mais engraçada do filme com uma afetação acima do normal. E no caminhar da história, Alice ruma ao seu destino messiânico para enfrentar o Jaguadarte no tabuleiro de xadrez, numa batalha entre peças e cartas, naquele que é o mais impressionante clímax de um filme do diretor, tendo destaque a homenagem a outro filme da Disney, A Bela Adormecida. Severamente malhado pela crítica como uma bobagem de visual delirante, Alice no País das Maravilhas é muito mais do que bordam. É um filme divertido e empolgante, de visual único com as características de seu realizador. Merece um pouco mais de respeito e carinho. Valeu cada centavo de seu investimento e faz jus a todo sucesso que obteve.

NOTA: 9,5

domingo, 6 de junho de 2010

Homem de Ferro 2

Uma regra bem aplicada com relação a um lançamento de um filme é que você jamais gere muita expectativa antecipadamente. O temor da frustração é até plausível. O primeiro Homem de Ferro é inegavelmente um ótimo filme, apesar da má impressão que deixava. Daí é impossível não almejar algo ainda melhor na seqüência - até porque o segundo trailer do filme deixa qualquer um salivando de ansiedade. Desde que assumiu o controle de suas próprias produções no cinema em 2008 a Marvel anda semeando terreno para a criação de um grande evento de seu universo (ganha um doce quem falou Vingadores). E mais uma vez aposta todas as suas fichas no poder do reator Ark no peito do Vingador Dourado. Homem de Ferro 2 segue a risca a regra das continuações dos filmes da editora/estúdio: é maior e melhor. Corresponde as expectativas e não decepciona. Sucesso again! Homem de Ferro 2 começa exatamente onde o primeiro terminou. Após se revelar ao mundo como o piloto do traje do herói de metal, Tony Stark enfrenta novos problemas. O governo deseja para si a tecnologia do traje; a principal concorrente da Stark Internacional, as indústrias Hammer, vê a oportunidade de fornecer armamento para o exército americano ao mesmo tempo que pretende controlar a tecnologia tão desejada pelo governo; sua exposição tira da sombra um antigo inimigo, além de o próprio Stark se ver envenenado pela mesma tecnologia que o mantém vivo. Com tanta coisa a acontecer é até de se esperar que o trem descarrile no decorrer do percurso. Mas não. O diretor Jon Favreau demonstra aqui total domínio na condução. Com mais liberdade e mais dinheiro na mão, ele não quis fazer uma seqüência que fosse maior apenas em tamanho e barulho, mas sim um filme superior também qualitativamente. E para isso manteve o mesmo padrão criativo do primeiro (até a abertura com uma música do AC/DC permanece, saindo ‘Back in Back’ e entrando ‘Shoot to Thrill’). Sem ter mais que se preocupar com origem, o diretor nos joga diretamente dentro da história como se fossemos bem íntimos de todo a mitologia do herói. Contando com o apoio de um elenco afiado - e completamente à vontade em seus papéis, Favreau abraça com confiança extrema o texto do ator/roteirista Justin Theroux e conduz o longa com experiência e carinho de fã. Algo que, convenhamos, é essencial num projeto desses. Homem de Ferro 2 parece ser um filme curto e rápido demais, só que não é. O seu desenrolar é que é bastante envolvente. E apesar da inserção de novos personagens e vilões (sim, vilões), Favreau não perde tempo com apresentações e nem se enrola nas subtramas. Tudo é bem desenvolvido e resolvido. Nem uma ponta fica solta. Longe de querer abraçar um tom realista, algo tão vigente em Hollywood, o diretor faz um filme de HQ no sentido mais amplo da palavra. Ele não quer, de maneira alguma, humanizar Tony Stark, muito menos tornar as ações do Homem de Ferro moralistas. Stark tem inúmeras falhas de caráter, é arrogante, prepotente, garanhão, egocêntrico e às vezes repulsivo. Ele não se tornou herói para aplacar o trauma de ser assim. Ele se tornou herói por acaso. E justamente por conta disto, abusa ainda mais dos adjetivos citados a pouco. Stark não sabe o verdadeiro peso da armadura que veste. Ele deu ao mundo paz, mas a mesma não é eterna. As ameaças que seguem são bem maiores do que ele possa esperar. Robert Downey Jr. mais uma vez dá um show na pele de Stark. Bem, ele basicamente já é o próprio Tony Stark. Seus diálogos com Gwyneth Paltrow (outra que também está perfeita no papel) são tão espontâneos que parecem todos improvisados. Don Cheadle entra para substituir Terrence Howard como o Coronel James Rhodes e, quer saber, não nos faz nem notar. Ele abraça tão bem o personagem que parece ter vindo junto com o time do primeiro filme. Sem falar que ainda teve o prazer de vestir a armadura da Máquina de Guerra e lutar ao lado (e de igual pra igual) com Tony Stark. Samuel L. Jackson retorna com mais tempo como Nick Fury e dá ao papel aquele sarcasmo típico do personagem. Quanto aos novatos, Scarlett Johansson como a Viúva Negra já mostra porque merece estar na equipe dos Vingadores em 2012 e pela primeira vez é bem aproveitada num filme de ação (sim, ela arrebenta alguns traseiros de forma espetacular) e Mickey Rourke não passa do trivial no papel de Ivan Vanko (mas deve ter se divertido um bocado com aqueles chicotes eletrificados). Mas quem rouba o filme mesmo é Sam Rockwell como Justin Hammer. Falastrão, ambicioso e inescrupuloso, o ator desaparece como o típico vilão de HQs sem poderes, daqueles que acham que podem dominar o mundo e que ninguém pode detê-los. É um caricato bem interpretado. E ainda equilibra de forma incomum um tom ingênuo e megalômano. As cenas de ação continuam poucas, mas são infinitamente superiores as do primeiro filme. O filme vai numa crescente alternado bem os ótimos diálogos com as ótimas cenas de ação até culminar num gigantesco ápice no alucinante clímax final com Stark e Rodhes, cada um em sua armadura, dando cabo de uma hoste de armaduras-robô deixando qualquer fã de quadrinhos em estado de graça. Homem de Ferro 2 não é só a seqüência de um sucesso da Marvel, é o filme da Marvel, aquele que abre as portas para algo maior que está para vir. É o carro abra-alas do desfile do universo Marvel que chegará a apoteose com Os Vingadores. Duvida? Alguém aí esperou pra ver o martelo do Thor no final dos créditos? NOTA: 9,0

sábado, 17 de abril de 2010

Os 10 que definiram os 2000

Bem, enquanto os filmes de 2010 não aportam nos cinemas de uma vez, eu resolvi fazer algo da moda na Internet para não deixar as atualizações deste blog tão relapsas: uma lista. Todo mundo tem um pouco de Rob Gordon dentro de si. O célebre personagem criado pelo autor inglês Nick Hornby e personificado no cinema por John Cusack tinha a indefectível mania de fazer lista pra tudo. Eis que entre os cinéfilos blogueiros isto também é rotina e eu resolvi aderir a parada criando a minha também. Tudo bem que já estamos quase no fim do 4º mês do ano, mas esta lista eu criei no fim de 2009, mantendo uma tradição que eu mesmo perpetuei dez anos antes, que era pensar em 10 filmes que em sua essência fossem a cara da década que passou, ou que, de certa forma, fossem responsáveis por trilhar o percurso da década, seja pelo sucesso, impacto ou revolução que causaram. Foi difícil. Lista é sempre motivo de polêmica pra todo mundo, você nunca consegue ser justo. Ou esqueceu alguém, ou ignorou alguém, ou pôs um filme que não merecia estar ali... As discussões estão abertas! Aqui estão, na minha mais que humilde opinião, os 10 filmes que definiram a primeira década do século XXI:

1. Amnésia (Memento, EUA, 2000)

De Christopher Nolan.

2. Trilogia O Senhor dos Anéis
(The Lord of the Rings Trilogy, EUA, 2001/2002/2003)
De Peter Jackson.

3. Shrek (EUA, 2001)
De Andrew Adamson.


4.
O Fabuloso Destino de Amélie Poulain
(Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, FRA, 2001)
De Jean-Pierre Jeunet.


5. Cidade de Deus (BRA, 2002)
De Fernando Meireles.


6.
Fahrenheit 11 de Setembro
(Fahrenheit 9/11, EUA, 2004)
De Michael Moore.


7. O Segredo de Brokeback Mountain
(Brokeback Mountain, EUA, 2005)
De Ang Lee.

8. Wall*E (EUA, 2008)
De Andrew Stanton.


9. Batman - O Cavaleiro das Trevas
(The Dark Knight, EUA, 2008)
De Christopher Nolan.


10. Avatar (EUA, 2009)
De James Cameron.
* Breve colocarei um micro-texto explicando o motivo de cada um estar aqui.

domingo, 14 de março de 2010

Sherlock Holmes

Sabe, no pouco tempo que me sobra pra pensar eu andei avaliando que essa moda de reinvenção de personagens já está se tornando um tanto clichê. Deixe-me explicar: os produtores dizem que querem “atualizar” um personagem célebre para os novos tempos e de repente ele vira um herói de ação estilo John McClane, sem medo do perigo e disposto a arriscar sua vida muitas vezes por um motivo fútil. E aí vem a pergunta: será realmente necessário destruir a essência de um personagem, sua elegância retrô, seu caráter irrevogável, em prol do entretenimento lucrativo? Quando a reinvenção adéqua a mitologia aos tempos atuais a história é outra (vide os casos de Batman e Star Trek). Mas quanto aos personagens, vê-los transformados em brutamontes intelectuais é por demais estranho. James Bond e agora Sherlock Holmes que o digam. Se a onde é desmitificar o personagem não vai tardar para vermos Hercule Poirot (o sagaz detetive dos livros de Agatha Christie) sair na porrada com seus desafetos.

Sherlock Holmes pode até ser um caso extra. Desde que foi criado por Sir Arthur Conan Doyle que ele passa por transformações em outras mídias, seja no teatro, na TV, no cinema ou até mesmo na literatura. Só para citar exemplos recentes, ele já ganhou uma juventude acelerada em O Enigma da Pirâmide (filme de Barry Levinson de 1985), os maneirismos de um português em O xangô de Baker Street (livro de Jô Soares) e ganhou agilidade equivalente a astucia na história criada por Lionel Wigram na qual se baseia o novo filme do Guy Ritchie. Holmes na pele de Robert Downey Jr. ganhou certa americanização. De certo modo ainda é o mesmo Sherlock Holmes que conhecemos. Mora no apartamento 221B da Rua Baker, adora violino, fuma um cachimbo torto, é hábil no boxe, um exímio espadachim, é arrogante e presunçoso. Só que menos elegante e sisudo. Causa certa estranheza ver aquele detetive introspectivo se tornar um herói audacioso e por vezes trapalhão. E como um desequilibrado Downey Jr. mais uma vez tira de letra.

O doutor Watson também ganhou nova roupagem. No corpo de Jude Law ele deixa de ser o alívio cômico da dupla para, vejam só, se tornar o lado mais racional. Veterano de guerra, o médico agora não se esquiva de uma boa briga e não mede esforços para salvar seu amigo de alguma enrascada. E para não transformar o filme num produto para garotos, o diretor abre espaço para uma personagem feminina. A Irene Adler dos livros, antigo interesse romântico do detetive, ganha as curvas de Rachel McAdams. Só que agora sai a socialite fria e chantagista e entra no lugar uma ladra granfina, sensual e espevitada. Muda também a forma como Holmes a vê. Em vez de nutrir uma paixão platônica, agora ambos alimentam um sentimento forte de admiração recíproca, e chegam a soltar faíscas cada vez que encontram.

Apesar das mudanças de tom, Sherlock Holmes é um ótimo filme. Guy Ritchie tem um apuro técnico especial e o usa de forma genial em determinados momentos que, sem muita ousadia, não passariam de instantes banais. Em algumas cenas de briga, por exemplo, vemos como funciona a cabeça de Holmes ao estudar calculadamente cada movimento que irá fazer e a reação que o mesmo irá causar. A Inglaterra vitoriana de Guy Ritchie, em ápice da revolução industrial, é suja e caótica. Além de bastante sombria, graças à fotografia de Philippe Rousselot. Mas a trilha sonora eclética do mestre Hans Zimmer chega a torná-la festiva e bastante agitada. A trama gira em torno do vilão Lord Blackwood que assusta Londres com ocultismo e rituais satânicos. Cabe a Sherlock Holmes e ao Dr. Watson solucionar se esse mistério realmente envolve forças do mal ou é mero charlatanismo. A edição do filme é o seu maior trunfo, acompanhando o ritmo das observações e deduções do herói. As cenas de ação também não deixam a desejar, sendo bem movimentas e pinceladas com o humor involuntário típico do diretor. Sucesso nos cinemas e já com uma continuação nos trilhos (professor Moriaty vem aí!), Sherlock Holmes é assim: diferente e divertido. Ponto para o diretor que não perdeu as rédeas no comando de um blockbuster. E ainda conseguiu ser ele mesmo saindo da sombra do mais do mesmo. Eu disse que isso seria possível.

NOTA: 9,0

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Bastardos Inglórios

Depois que Quentin Tarantino deu Pulp Fiction ao mundo (uma versão anabolizada de Cães de Aluguel), o público, ávido por aquele estilo verborrágico e violento, esperou ansioso por um novo aperfeiçoamento, um novo Tempo de Violência. Triste decepção quando Jackie Brown estreou – um filmão, diga-se de passagem. Seis anos de hiato até Kill Bill. E justamente depois dele o mundo já não sabe mais o que esperar da mente do diretor. O que vier então, será de enorme agrado.

Bastardos Inglórios é um deleite para qualquer amante do cinema. Não é ousadia dizer que é uma nova obra-prima do diretor. O filme é um atestado de competência, um certificado autenticado de maturidade. Da magistral cena de abertura ao irônico diálogo final, Tarantino se mostra cada vez afinado com a direção. E é impressionante como ele faz o filme que quer, sem ter que dar satisfação ou justificativa, querendo apenas ver aquilo que gosta e provar a si mesmo que consegue fazer uma obra melhor que a outra, independente do gênero. Tarantino é um gênio do cinema. Que me perdoem os amantes de Buñuel, Truffaut, Bergman, mestres incontestáveis da arte cinematográfica, mas o gênio em questão pertence a outro estilo, outra geração. Ele é um grande conhecedor da arte que, ao invés de reciclá-la em sua plenitude, reverencia o cinema B, um celeiro de idéias tão criativas quanto absurdas, mas nem por isso menos interessantes. Tarantino bebe da fonte de diretores cult, de mestres polêmicos e execrados. Tarantino consegue ser Kurosawa, Leone, Peckinpah e Scorsese sem jamais perder sua própria identidade. É atual e anacrônico quando quer.

Nesta fábula de guerra, Brad Pitt é o tenente Aldo Raine (um caipira canastrão sem uma gota sequer de glamour), líder de um grupo de rebeldes judeus que, distante e a parte do real enfoque da II Guerra Mundial, estão ali num propósito único e pessoal: matar o maior número de nazistas possível. O longa é dividido em capítulos que, vistos separados, poderiam funcionar como episódios individuais. Há sim conexão entre eles – um dá continuidade ao outro –, mas cada um tem detalhes que os tornam únicos, seja o ponto de vista, o estilo ou mesmo o modo como foram filmados. Tarantino capricha bem na ambientação em cada um deles. Sua câmera capta tudo, não deixa nada de fora ou fora de foco. Tarantino brinca de Kubrick a contento. Pudera, ele tem savoir-faire pra isso. A fotografia de Robert Richardson é aberta e límpida, destoando um pouco do que se normalmente exige de um filme de guerra. E a trilha sonora, como bem sabemos, é um personagem à parte nos filmes do diretor, que mistura os acordes de Enio Morricone com música erudita, marchas de guerra e David Bowie sem nunca soar absurdo. Cada música se encaixa perfeitamente na cena, como se tivesse sido criada exatamente para aquele momento. Os diálogos também são de uma fluidez fora do comum, nunca soando tediosos, mesmo em inglês, alemão, francês ou italiano. Há também a violência tarantinesca. Neste caso, longe de ser sádica, doentia ou exagerada, em Bastardos Inglórios ela é, por vezes, poética. O cinema de Quentin Tarantino é uma brincadeira só. E ainda há Christoph Waltz e Mélanie Laurent para roubarem a cena. O primeiro, no papel de um coronel da SS, é dono de qualquer seqüência em que esteja presente com um sarcasmo e cinismo brilhante. A segunda, no papel de uma gélida judia loira em busca de vingança, ilumina as cenas em que está presente com sua beleza. No fim Tarantino, mais uma vez, deu o melhor de si, subvertendo mais um gênero de forma especial. Seja com poesia, humor negro ou violência gráfica, Tarantino prova mais uma vez que é único e consegue fazer o que mais ninguém faz de forma genial. Uma pérola para se discutir durante longos dias nas rodas de amigos.

NOTA: 9,5

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Avatar

Quando James Cameron lançou O Segredo do Abismo há 20 anos, depois do sucesso de duas produções espetaculares, porém modestas, ele foi tachado de megalômano, ambicioso e louco. Jamais visionário. Cameron foi responsável por marcos no desenvolvimento de efeitos visuais no cinema. Deu vida a mais outras duas produções incrivelmente audaciosos até se tornar “Rei do Mundo” com Titanic, o maior sucesso da história do cinema. 12 anos se passaram desde então. Cameron fazia mistério sobre seu novo projeto. Foram 4 anos de produção intensa até o resultado final. Avatar surge nas salas de cinemas mundiais. E James Cameron, mais uma vez, criou um clássico. Não, risca isto. Cameron, mais uma vez, deu vida a um ser. E foi responsável por um divisor de águas do cinema moderno. Os cinemas convencional, digital e 3D nunca mais serão os mesmos depois de Avatar.

Em termos de narrativa Avatar não é nenhuma surpresa e é até, convenhamos, óbvio demais. É uma espécie de Dança com Lobos e O Último Samurai Sci-Fi. Cameron peca ao distinguir claramente os bons dos maus, deixando o roteiro com atmosfera infantil, além de abusar do romance deixando a história um tanto melosa. Mas no quesito visual, o diretor foi ao infinito e além. O mundo de Pandora é de uma perfeição inigualável. Em algumas cenas, tamanha a grandiosidade e a infinidade de detalhes minuciosos, é impossível não ficar boquiaberto. Cameron deu uma de Deus (na certa cansou de ser só “Rei”) e literalmente criou um mundo. O ecossistema de Pandora se assemelha um pouco ao da Terra, porém, sua fauna e sua flora, além claro da civilização nativa Na'vi, são de uma riqueza cristaliza e de um exotismo singular. Algo mágico. Um trabalho de design extraordinário. E visto que, com exceção dos atores, tudo foi criado por computador, chega até ser inacreditável que nada ali seja real de tão perfeito. E a fotografia digital do filme realça ainda mais a falta de limites entre o real e o quimérico.

Na trama simples, Jake Sully (Sam Worthington, perfeito e com uma brilhante carreira pela frente) é um ex-militar paraplégico que é levado ao planeta Pandora, habitado pelo povo Na'vi, raça humanóide com língua e cultura próprias, em substituição a sua irmão morto, para estudo e exploração do local. E nesse lugar ele acaba lutando pela própria sobrevivência e pela preservação desse povo. Além de Worthington, Cameron também conta com a presença de Sigourney Weaver no papel da Dra. Grace Augustine, uma cientista brilhante já familiarizada com os Na'vi. A presença dela deixa o filme mais seguro e humano. E ainda dá a Stephen Lang o papel de sua vida ao interpretar o coronel casca-grossa Miles Quaritch, o suposto vilão do filme. Bem, suposto porque é nítida a intenção do diretor/roteirista de passar uma mensagem ecológica. Já que ele criou um mundo, não quer que o mesmo seja maculado ou devastado, e só uma espécie irracional destruiria tamanha beleza natural. Daí é a raça humana que ostenta o papel de vilão com sua ganância e intolerância desmedidas. Em busca dos recursos naturais do planeta, os executivos burocratas e o exército americano não vêem problema em explorar e destruir a biodiversidade de Pandora. E eles terão o que querem, nem que para isso tenham que promover um genocídio coletivo. Cabe a Jake a tarefa de ser o contraponto pacifista, nem que tenha que abandonar seu lado humano e lutar ao lado dos nativos.

Cameron criou um filme longo por demais. Aos desavisados de seu estilo eloqüente e um tanto soberbo, o longa-metragem pode ser um pouco enfadonho, tornado-se empolgante depois de sua metade. Mas quem foi contemplar a mais nova obra-prima do diretor em sua íntegra, em sua essência, mesmo que não tenha sido em 3D, saiu do cinema mais que satisfeito. Cameron, além de saber trabalhar com efeitos especiais como nenhum outro diretor, é ótimo na condução de atores, lida bem com os dramas dos personagens e conduz cenas de ação com maestria. A cena da destruição da árvore da civilização e o clímax final são espetaculares. Nada novidade para quem dirigiu O Exterminador do Futuro 2 e True Lies. Cameron também não deixa que os efeitos compensem os defeitos. Nada é jogado ao acaso. Basta lembrar que em Titanic o romance entre Jack e Rose não era mero pano de fundo para a tragédia, mas o oposto. Avatar é um espetáculo visual, um marco na história do cinema. Um clássico a ser lembrado não somente por ser uma revolução técnica, mas um filme de história simples e tocante banhado com o mais alto brilho visual. A espera compensou. Nossos sinceros parabéns, James Cameron. E viva a tecnologia!

NOTA: 10

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Lua Nova

Domingo. Começo de noite abafado. Uma fila quilométrica para entrar. Sessão lotada. Ansiedade. Dois terços do público ali presente deveriam ter metade da minha idade. Metade da platéia era do sexo feminino. Gritos histéricos. Suspiros abafados. Sussurros engraçadinhos. Um cheiro desagradável de biscoito recheado sabor morango pairava no ar. Filme dublado. Sentiu o drama? Esta foi a minha sessão de Lua Nova.

Lua Nova não é o filme do ano. Definitivamente não. Não tem os melhores efeitos especiais (todavia superiores ao primeiro filme), não é bem cuidado, não é bem tratado, o roteiro de Melissa Rosenberg é premeditado e as interpretações passam longe de algo convincente, fazendo até o pior ator de Malhação enrubescer. Mesmo assim é um sucesso. Como explicar? Sem falar que nem o próprio romance dos protagonistas, tão badalado e alardeado, tem tanta ênfase na trama. Lua Nova é um lixo de luxo, um produto desleixado com excesso de autoconfiança. Presunçoso, prepotente e um enorme sucesso. E no meio dessa história toda sinto que o chato sou eu. Investiram mais dinheiro, corrigiram os erros, melhoraram o pouco que tinha de bom, intensificaram a ação (embora ainda dê certa aparência de descaso), puseram um diretor mais experiente no comando (Chris Weitz, dono de um currículo eclético que vai de American Pie a A Bússola de Ouro) e no frigir dos ovos deram vida a um filme vazio, sem conteúdo significativo, que aposta (e apela desmedidamente) no retorno do público feminino. É um upgrade do mais do mesmo.

A trama dessa vez enfoca o relacionamento de Bella e Jacob Black (o péssimo Taylor Lautner). O elitismo caucasiano vampiresco é deixado um pouco de lado para o surgimento da raça dos lobisomens. Após um fora de Edward e de noites infindáveis de depressão e pesadelos, a insossa heroína encontra refúgio na amizade sincera de Jacob. Daí sai a metáfora sobre a castidade e entra quase que indiscretamente uma nova sobre a afloração dos hormônios. Jacob se metamorfoseia num lobo raivoso depois de sentir atração (excitação?) por Bella. Corta o cabelo, se tatua, começa a comportar-se de forma mais rude (ui!) e ganha massa muscular. Isto, é bom ressaltar, é mera desculpa esfarrapada para a exibição gratuita e sem fundamento de tórax e abdomens sarados para levar o mulheril ao ensandecimento. Entenda-se, apelação.

De alguma forma, isto pode até fazer algum sentido. Vejamos: Edward é romântico, cavalheiro e culto. Jacob é solitário e bruto, porém apaixonado. E na confusão de sentimentos, Bella se vê dividida entre o pálido e gélido vampiro e o bronzeado e aquecedor lobisomem. A tradução do sonho de qualquer adolescente, que é ser disputada por dois homens que carregam consigo as características opostas que elas tanto admiram. Mas vamos falar sério, o que diabos esses dois caras viram na Bella? Ela é uma garota sonsa, lerda, desequilibrada, desastrada e carrega sempre a mesma expressão compungida. Se a Bella é o arquétipo das adolescentes de hoje, Deus, que raios de mulheres elas serão no futuro? Mas há alguns momentos de ação! E eles, de certo modo, compensam a falta de algo mais interessante no enredo. Porém não apagam o constrangimento da hemorragia de frases clichês que escorre da tela. No fim, a única coisa digna de nota no filme é a presença enigmática e andrógina dos Volturi, a casta mais nobre dos vampiros. Ali, naquele instante em que roubam a cena, esquece-se um pouco do sentimentalismo piegas e concentra-se na mitologia atualizada dos sugadores de sangue. Fim. Quer ir com sua namorada, boa sorte, o risco é seu. Mas lembre-se de levar um I-Pod junto. Ele pode lhe ser de grande valia.

NOTA: 7,5

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Crepúsculo

Bom, falar de Crepúsculo em tempos de Lua Nova é algo um tanto ultrapassado. Mas, visto que o estrondoso sucesso do segundo filme da saga elevou Stephenie Meyer ao status de J.K. Rowling, resolvi tirar a crítica do primeiro filme do limbo e postar com um ano de atraso. Quero que fique bem claro que nunca foi intenção minha expô-la aqui. Não assisti ao filme no cinema, apenas em DVD. E atualmente nem ando colocando resenhas de filmes que assisto em casa. Mas o lançamento de Lua Nova me fez resgatar aquele velho insight, já um tanto apagado e esquecido, reavaliá-lo e colocar à mostra pra quem quiser ver.

Crepúsculo é tipo de filme que todo mundo gosta de denegrir, mas no fundo adora. Eu admito que pessoalmente relutei bastante em vê-lo, mas acabei cedendo. Não foi por preconceito não, foi puro desinteresse na trama. Trama que, aliás, não é mais nenhuma novidade. A diretora Catherine Hardwicke até que se esforça para fazer um trabalho digno, autoral, mas é evidente que cada tomada, cada close, cada suspiro, enfim, cada detalhe foi milimetricamente planejado para o filme tornar-se um produto lucrativo e não uma obra de qualidade - se é que alguém acreditava nisto. O primeiro livro da saga, com sua prosa rápida e envolvente, não tinha foco de destino. Qualquer um que o lesse poderia gostar e ponto final. Mas ao ser adaptado para o cinema, naquele joguete típico de “vamos arrumar um público-alvo”, enxugaram a história e centraram no que os fãs queriam ver: o romance pueril entre Edward e Bella. Não que seja ruim, porém, constatando-se que o filme é um mero produto de entretenimento e não uma adaptação de respeito (como os capítulos 3, 4 e 5 de Harry Potter, por exemplo), isso chega a ser entediante. Mas a estratégia deu certo e o filme foi um sucesso. Se funcionou bem no primeiro, funcionará bem no segundo. E por aí vai.

Crepúsculo tem tomadas chatas e enjoativas - principalmente as aéreas da floresta, algumas até um tanto vergonhosas. Tem momento de dar sono. Mesmo assim é um filme mediano. As cenas de ação são apressadas e mal planejadas (culpa da total falta de experiência da diretora com as mesmas), mas até que convencem, principalmente no clímax. O filme ganha pontos mesmo cada vez que parte do clã de vampiros “do mal” entra em cena, e também por não estereotipar os adolescentes, fugindo do comum dos filmes que os têm como protagonistas. Falando neles, é inegável que Crepúsculo seja um filme teen e que agrade em sua maioria as mulheres. Não por causa da palidez plástica do Robert Pattinson, mas por conta do cavalheirismo extremo de seu Edward, sua forma de cortejar, de demonstrar amor por Bella, de lutar por ela e, claro, sua imensa força de vontade em não sorver seu sangue. E é aqui onde entra a metáfora da castidade criada pela autora que fez os livros da série viraram febre e as fãs soluçarem no escurinho do cinema. Edward é um príncipe encantado de presas afiadas e Pattinson até que segura bem a onda como galã da vez, apesar de certa canastrice em determinados momentos. Já a Bella de Kristen Stewart parece perdida, meio zonza, meio fora de órbita. Difícil dizer às vezes se as expressões que faz são de medo ou de admiração. A trilha sonora meio pop, meio emo dá uma levantadinha no astral do longa e seu desfecho, apesar de piegas, tem um diálogo agradável entre os protagonistas. Nada mais. Crepúsculo faz parte de um plano e ele está funcionado, como já disse Kevin Smith em sua genial palestra na Comic Con deste ano. Daí é só esperar mais do mesmo daqui pra frente.

NOTA: 7,0

Se Beber Não Case

É tudo questão de timing. Não tem essa de ser metido a engraçado, fazer o público rir a custa de palhaçadas histéricas ou de escatologia verbal. Para se fazer comédia o ator tem que ter timing, ser engraçado por natureza. E diferente do que muitos pensam, fazer comédia não é fácil. Não é para qualquer um. Do humor ingênuo de Chaplin e Keaton, passando pelo non sense do Monty Python, o pastelão dos Trapalhões, até o humor de confronto tão em uso atualmente, a comédia sempre está se reciclando, por mais que o que seja feito hoje em dia seja uma saraivada de tudo o que já foi feito antes. Mas ao se fazer humor com o improvável, surge um novo alento para nossos olhos. E quando um filme com três caras desconhecidos se torna uma das maiores bilheterias do ano com uma censura 18 anos, pode olhar que aí tem coisa.

Se Beber Não Case é o improvável do óbvio. É uma comédia pra lá de engraçada, sem nenhum nome tão conhecido no elenco, realizada por um diretor talentoso, porém apelativo, sem tanto apelo junto ao grande público. O diretor Todd Phillips tem no currículo apenas uma comédia digna de nota, Dias Incríveis, de 2003 (que, confesso, sou fã). Então não existe pressão nem expectativa da parte de ninguém no lançamento de qualquer projeto seu. Quando Se Beber Não Case estreou na surdina em pleno verão norte-americano, quem apostaria que um projeto sem nomes de peso iria fazer sucesso? Pois fez. Com uma premissa pra lá de manjada – uma despedida de solteiro que dá errado – nasceu a melhor comédia adulta do ano. E não se admire se você achar aquilo tudo familiar, qualquer semelhança com qualquer ressaca sua é mera coincidência.

A história começa quando quatro amigos resolvem celebrar o último dia de vida antes do casamento de um deles (Justin Bartha) em Las Vegas. O problema é que depois de uma noitada daquelas e de uma ressaca homérica, ninguém se lembra de absolutamente nada e, para piorar, o noivo sumiu. Se esta breve sinopse já te fez rir, prepare-se para as surpresas. Agora, diferente do filme-modelo dessa classe de comédias (A Última Festa de Solteiro, com Tom Hanks), Se Beber Não Case não foca na noite de esbórnia e luxúria dos amigos, e sim nas conseqüências da mesma. Os outros três sobreviventes interpretados por Bradley Cooper, Ed Helms e Zach Galifianakis (este último é um achado e desde já merece o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) partem numa epopéia pela cidade dos cassinos em busca de noivo e de descobrir o que realmente aconteceu. Acredite, quanto menos você souber a partir daqui melhor.

Se Beber Não Case é um caso extra nos cinemas. Uma comédia adulta, com pessoas adultas que se comportam como adultas. Por isso, nada de passar constrangimento com atitudes infantis. O constrangimento aqui se resume ao fato de um pileque apocalíptico ter praticamente acabado com a memória de uma farra espetacular. E é nesse outro quesito que a comédia ganha mais pontos. Todd Phillips não faz o óbvio de explicar a cada frame de filme o que houve na noite anterior, pelo contrário, ele reserva as piadas para o resultado e as seqüelas do que ocorreu. O destino do noivo e as diabruras dos outros três amigos ficam apenas na imaginação. Somos espectadores ativos da história e compartilhamos com eles a total falta de senso perante aquela ressaca. O que eles sabem é o que nós sabemos. E o que eles descobrem nós descobrimos com eles durante toda a projeção. O que é motivo de vergonha para eles, é motivo de riso para nós. E lá pelas tantas, já no fim do filme, quando já passamos por quase todo tipo de reação por conta daquela noite de loucuras e quando praticamente não importa mais o que realmente aconteceu, eles encotram a máquina digital que registrou tudo. E junto com eles fazemos uma promessa de ver aquilo por uma única vez e esquecer toda aquela infâmia. E é no ápice do final feliz, no subir dos créditos que reside toda a graça do filme. Se você não rachar o bico de tanto rir no fim do filme, pode procurar um analista. Ou o seu pulso. E se você achar que Se Beber Não Case é um filme chato e sem graça, não se preocupe. Ninguém vai notar se você sumir. Pode voltar pro Zorra Total que ninguém vai te crucificar por isto. Cê tá pagando, né!?

NOTA: 9,0