domingo, 20 de março de 2011

Tropa de Elite 2

Tropa de Elite 2 é um filme de macho! Não na aceitação de ser um filme de ação agressivo ou mesmo feito só para homens. É um filme vigoroso que remete ao tipo de cinema tenso, rude e viril exercitado, por exemplo, por diretores como John Huston, Sergio Leone e Walter Hill. Tropa de Elite 2 é um filme corajoso. É um drama de ação niilista que expõe a realidade nua e crua, sem arrodeios ou omissões, sem qualquer tom de sátira ou ativismo político. Tropa de Elite 2 escancara a realidade para nos fazer sentir vergonha das instituições que deveriam servir para nos amparar. É literalmente um soco no estômago de cada cidadão. Tropa de Elite 2 é o melhor filme brasileiro da década, quiçá do século. Digno de orgulho e capaz de superar seja em qualidade e estética, até o mais caro dos blockbusters norte-americanos.

Não dá para falar de Tropa de Elite 2 sem primeiramente falar de seu diretor, José Padilha. Padilha é, sem dúvida, o mais audacioso cineasta nacional em anos. Um filho bastardo da publicidade que ousou levar a crítica social a âmbitos reacionários adequando tudo a um cinema documental e estilístico. Padilha não tem medo de apontar o dedo na cara de alguém e muito menos culpar o poder público por sua própria degradação. E ao lado do roteirista Bráulio Mantovani criou uma história em que qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Só por isto merece ser ovacionado de pé. Tropa de Elite 2 era um filme de lucro certo, amparado pela aura do sucesso/polêmica do longa original de 2007. E mesmo com toda essa certeza, José Padilha não se acomodou em fazer um mero mais do mesmo. Deu uma guinada de 360º na história do BOPE e construiu um filme perfeito, superior a seu precursor. Outra salva de palmas para ele.

Passados mais de dez anos entre as duas histórias, o eixo principal pode ser o mesmo (a polícia e o BOPE), mas a temática agora é outra. Sai a criação do Batalhão de Operações Especiais e entra a criação da Segurança Pública. Padilha nos faz mergulhar nas entranhas da máquina do estado. Um mergulho de certo modo curioso e que aos poucos vai se tornando sádico até terminar por vergonhoso. Padilha expõe um mundo obscuro - o nosso mundo cotidiano! -, corrupto, inconseqüente, sujo e amoral. Um mundo que a gente sabe que existe e insiste em omitir. Um mundo onde fazer o dever de casa é manter a ordem política tradicional a cada dois anos, abdicando do bom senso e colocando sempre as mesmas pessoas ou gente incapaz (humoristas, artistas, jogadores de futebol) para reger a organização de tudo. Um mundo onde a violência, apesar de chocante, é corriqueira e natural. Uma violência desmedida e interminável, brutal e insensível, surgida não somente como resposta a ela própria, mas como forma justificativa dos meios. Um mundo que nós lemos nos jornais, nas revistas, assistimos na TV ou simplesmente contemplamos da janela.

Mas em meio a todo o caos há alguém que insurge com força para se opor ao conformismo. E no caso de Tropa de Elite 2 esse alguém é o tenente-coronel Nascimento. Nascimento é o nosso Superman, nosso James Bond, nosso Jason Bourne, nosso Jack Ryan. Nascimento é a indignação nacional. É o que cada um dos formadores de opinião gostaria de ser. Um personagem destemido e agressivo que não teme peitar os próprios colegas ou superiores, que não se omite na frente de bandidos ou políticos, até do maior deles se possível. De nada adiantaria ser a espinha dorsal do longa sem alguém que o fizesse com garra. Daí entra o trabalho extraordinário de Wagner Moura (sim, o melhor ator brasileiro da atualidade!). O baiano franzino desaparece para dar lugar ao carrancudo, rigoroso e incorruptível Nascimento. Ainda fascista e cada vez mais anti-social, Nascimento agora é secretário de segurança do estado do Rio de Janeiro. E é dali onde começa uma guerra pessoal contra o sistema, arriscando sua vida e a de sua família em nome da honra. Tropa de Elite 2 é um filme que precisa ser vivenciado não apenas pelos amantes do bom cinema, mas por todos os brasileiros. É um filme de discussões e teses. A melhor coisa que o Brasil produziu em 2010. Uma história que te faz querer ser um “caveira” e sair do cinema botando ordem em tudo. Só que fora da sala escura a esperança de paz ainda é um sonho distante. O mundo é aquele que vimos há pouco e que nos envergonha. E onde ninguém faz nada para mudar. Um sistema foda!

NOTA: 10

Nenhum comentário: